Fundamentalismo em debate

Rev. Haroldo Mendes*

Evangélicos e católicos discutem fundamentalismo religioso

 

Rev. Haroldo Mendes*

 

Aconteceu em São Paulo nos dias 21 e 22 de agosto o Seminário Fundamentalismo Hoje. Promovido pelo Fórum Ecumênico Brasil (FE-BRASIL) e organizado pela ASTE, CESE e KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, o evento foi realizado no Instituto Salesiano Pio XI, no Alto da Lapa, na capital paulista.

Entidades ecumênicas e igrejas de várias partes do Brasil e exterior estavam representadas. Entre elas, KOINONIA, CONIC, CAIC, CMI (Genebra), Centro Ecumênico Diego de Medellín (Chile), ICEC (Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos) ligado à Igreja Assembléia de Deus Betesda, PROFEC, CLAI, ASTE. Além das entidades ecumênicas, também houve a presença das igrejas Católica Apostólica Romana, Igreja Presbiteriana Unida do Brasil, Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, Igreja Episcopal Anglicana do Brasil e Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil.

As palestras foram proferidas por especialistas e teólogos. A abertura do seminário foi feita pelo Rev. Zwinglio Mota Dias, doutor em teologia pela Universidade de Hamburgo (Alemanha), professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da UFJF, pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e editor da revista Tempo e Presença, de KOINONIA. Ele colocou com bastante clareza a realidade do fundamentalismo. No seu entendimento, os fundamentos são necessários para nossa identidade cristã. Entretanto:

“É necessária a alteridade para se revelar ao outro que também construiu sua identidade a partir de seus fundamentos. O diálogo só é possível se houver uma abertura ao diferente. O negativo no fundamentalismo é a intransigência de querer conquistar o outro, que é visto como uma ameaça. ” frisou Dr. Zwinglio.

Sobre o fundamentalismo no contexto da Igreja Católica Apostólica Romana, a responsável foi a professora Brenda Carranza, doutora em ciências sociais, professora-pesquisadora convidada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

Para a Dra. Brenda o fundamentalismo moderno é uma reação à modernidade. Fundamentalismo não é uma ideologia, mas uma atitude. A atitude fundamentalista tem como princípio dois elementos:

– a defesa da verdade inegociável

– a premissa de que minha interpretação da verdade é a correta.

Segundo ela, existem quatro tipos de fundamentalismo: científico, cultural, religioso, político-religioso.

Brenda destacou que os elementos de identificação do fundamentalismo na Igreja Católica Romana são o Papa, mariologia, sacramentos, eucaristia e mediação dos santos. Ela ressaltou também que para entender o fundamentalismo da Igreja Católica Romana há que se entender o incômodo causado pela renovação carismática católica, que estabelece uma relação com Deus sem mediação, o que elimina o centro do poder simbólico e concreto: “não preciso de padre, não preciso da igreja”.

Já no contexto Evangélico ou protestante, a explanação ficou com o Rev. Leonildo Silveira Campos, pastor da Igreja Presbiteriana Independente, teólogo e professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo. Leonildo traçou um histórico do fundamentalismo protestante, desde seu início nas primeiras décadas do século XX nos EUA até chegar ao Brasil. Para ele, o protestantismo brasileiro recebeu a influência do pietismo e do evangelicalismo norte americano.

“Não há diálogo. Todavia, o discurso é fundamentalista, mas a prática é relativista. Diante desse quadro, nossa participação como ecumênicos fica muito difícil. (…)  “Há o relacionamento ecumênico com vários grupos afins, porém com os pentecostais temos grande dificuldade para o diálogo e ações conjuntas”, reforçou Leonildo. Para ele, haveria um canal aberto para o avanço do espírito ecumênico se nós nos confrontássemos com a nossa intolerância cultural e religiosa. Ele também coloca que será possível estabelecer avanços na direção do diálogo a partir dos seguintes itens:

– Da experiência pentecostal de evangélicos e católicos: já tem sido abertos canais de diálogo nesse sentido;

– Da intensificação do estabelecimento de diálogo para discussão de questões pontuais que separam os diferentes grupos religiosos, o que os têm levado a se enclausurarem em suas convicções particulares;

– Da discussão sobre a ascensão do fundamentalismo dogmático (que divide) em prejuízo dos valores do fundamentalismo escriturístico (que dialoga);

– Da neutralização da polarização em todas as igrejas que têm seu foco na questão do poder político;

            Em todas as palestras houve espaço para os grupos de discussão, que através de um relator colocava ao grupo as impressões da discussão. Ao final do encontro, os participantes fizeram uma síntese das discussões e conclusões dos grupos.

 

Ao avaliar suas experiências à luz das discussões, os participantes chegaram a uma série de conclusões, ainda que provisórias, como afirma o texto, no qual constatam que “a partir do conhecimento do outro, valorizando demandas sociais concretas, tem sido possível estabelecer alternativas de diálogo com grupos historicamente resistentes ao ecumenismo”. Daí a necessidade de se criarem “espaços onde a diversidade se apresente” e de aprofundarem-se as “discussões sobre as identidades e respectivos direitos”.  A importância da formação ecumênica das lideranças e dos membros da igreja, desde a infância, foi enfatizada, assim como o imperativo de se desenvolver uma pedagogia adequada, pois “torna-se necessário não confundir uma pessoa fundamentalista por convicção, com pessoas que têm idéias fundamentalistas, simplesmente por reproduzirem um pensamento do senso comum”.

O texto-síntese afirma também que “ecumenismo se dá, acima de tudo, entre pessoas” e que “as instituições só se aproximam quando há pessoas dispostas a fazer essa aproximação”. Em outro ponto, o texto constata que muitas igrejas não têm uma posição institucional ecumênica e que, em outras, “apesar de haver posição institucional não-ecumênica, muitos de seus membros estão abertos ao diálogo. Por isso, “é necessário desenvolver formas que contribuam para superar as barreiras”. Alem do diálogo em torno de reflexões bíblico-teológicas, os participantes apontaram que um possível caminho para ultrapassar essas barreiras pode ser “a discussão a partir do conceito de democracia e os valores pressupostos por esse modelo. ”.

Ao final, os participantes fizeram uma constatação e, ao mesmo tempo lançaram um desafio às igrejas ao afirmarem “que estamos diante de um fenômeno que se torna semelhante em todas as igrejas: buscar seus fundamentos para não perder sua identidade, a qual está se tornando líquida”. E essa busca deve ser tratada “de forma a nos unir e não separar, não voltadas para si mesmas, mas abrindo-se para o outro”.

 

 

* Clérigo da Igreja Anglicana e jornalista

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