Comunidades religiosas e movimentos sociais debatem os Direitos Ambientais

Márcia Evangelista

No dia 30 de maio, o Projeto Ecumenismo, Diálogo e Formação (EDF) de KOINONIA, realizou, na sede de KOINONIA, no Rio de Janeiro, o Seminário Direitos Ambientais, Religiões e Movimentos Sociais, com o objetivo de trocar experiências entre representantes de movimentos sociais e comunidades religiosas na luta em favor dos Direitos Socioambientais.
O encontro reuniu representantes de comunidades religiosas do candomblé, espíritas, muçulmanas e cristãs e lideranças de movimentos sociais rurais e urbanos, para uma apreciação coletiva de processos políticos com vistas ao desenvolvimento sustentável e à justiça ambiental.
O Seminário
O Seminário foi desenvolvido ao longo do dia em quatro mesas de conversa. A parte da manhã foi dedicada às questões voltadas para a dimensão rural e agrária das lutas por direitos socioambientais e o papel que as comunidades religiosas e os movimentos sociais têm desempenhado, com destaque para a reforma agrária; a dificuldade das comunidades religiosas nas áreas rurais; a presença e ausências de pessoas de fé nas lutas socioambientais camponesas e a questão dos territórios da cidadania.
 
 
Mesa 1 – Manhã
A primeira mesa da manhã foi moderada pelo Rev. Eduardo Dutra, da Igreja Presbiteriana Unida (IPU) e teve como debatedores Pe. Geraldo Lima (CPT) e Ezequiel Siqueira (Fetag-RJ)
Em sua fala, Ezequiel Siqueira destacou o avanço nas lutas da Fetag RJ, juntamente com as associações rurais, STTRs e Contag: “No Grito da Terra deste ano entregamos à Presidenta Dilma uma pauta com 200 itens, destes 183 foram aceitos”. Entre os pontos que estão na pauta da discussão da Federação é o Código Florestal. “Há necessidade de resolver a situação de forma urgente, porque o trabalhador rural está sofrendo com os prejuízos, apesar de ser quem mais preserva”.
Pe. Geraldo Lima, da Comissão Pastoral da Terra de Nova Iguaçu, demonstrou em sua fala preocupação com o modelo de produção e lançou perguntas: “Nosso Planeta Terra, como vai? É possível salvar a vida das pessoas e do planeta Terra com o modelo de produção que temos hoje, com uso de agrotóxicos, com a atual forma de exploração do solo, sem limite de controle?… Ainda existe esperança para o Planeta? Em 1948, a DUDH afirmou o direito à alimentação. Em 1969 se declarou a necessidade de eliminar a fome e a subnutrição. Em 1974, se afirmou o direito individual de sermos libertados da desnutrição. Em 1992, se reafirmou tal compromisso. (…) Em 1927 a população mundial chegou a 2 bilhões, Em 1974, 4 bilhões; hoje beira a 7 bilhões, com a tendência de chegar a 9 bilhões em 2040. Os períodos encurtam para a explosão demográfica…”
 
 
Mesa 2 – Manhã
A segunda mesa da manhã teve como debatedores: Ronaldo dos Santos (Conaq) e Marília Schüller (KOINONIA/ACT Aliança).
A moderação foi conduzida pelo Rev Nilo Silva, da Aliança de Batistas
Ronaldo dos Santos destacou a luta das comunidades pelo reconhecimento de seus territórios: “…O Art. 68 da Constituição de 1988 criou um debate sobre a necessidade da regulamentação dos territórios quilombolas. Em 2003, o debate girou em torno do decreto 4887, do presidente Lula…O decreto institui uma política, como se a questão fundiária resolvesse a questão quilombola. Houve uma tentativa de julgar inconstitucional os procedimentos da regularização fundiária. Para nós, quilombolas, o Art. 68 está acima dessa discussão”.
Sobre as comunidades religiosas e a luta quilombola, Ronaldo lamenta a falta de comprometimento dos evangélicos com a luta: “Há uma incompreensão das comunidades religiosas em relação à cidadania plena, as coisas são distorcidas, muitas vezes fica a partir do interesse eclesiástico”.
Marília Schüller falou sobre o projeto de emergências coordenado por KOINONIA, destacando o trabalho desenvolvido junto aos municípios de Friburgo, Petrópolis e Teresópolis, na região serrana do Rio de Janeiro: “Nós estamos fragilizados diante das catástrofes e mudanças climáticas que estamos atravessando. Hoje, no Brasil, há um crescimento enorme das catástrofes climáticas, passando pelas enchentes, que já têm afetado 2 milhões de pessoas no Brasil. No caso da região serrana foi a 8ª maior catástrofe no mundo em 2011 (até agora)”.
O projeto de KOINONIA com o apoio de ACT Aliança pretende apoiar as famílias da área rural desses municípios, “numa primeira fase trabalhamos com o apoio nutricional e remessa de cobertores. Numa segunda fase há um projeto para voltado para o restabelecimento produtivo, focado em atividades agroecológicas. KOINONIA é executor, mas não poderia estar realizando esse trabalho sem a parceria de Igrejas e organizações parceiras”, destaca Schüller.
 
Após o almoço, os participantes debateram as questões urbanas referentes à promoção da justiça ambiental. Serão tratadas questões referentes a (in)segurança urbana; o papel das juventudes nas lutas sociais e a relação que as comunidades religiosas urbanas têm com a organização da sociedade civil e suas lutas por justiça e democracia.
 
 
Mesa 3 – Tarde
A terceira mesa do dia contou com a participação dos jovens Timóteo Greff, representando a Rede Ecumênica de Juventude (Reju) e Pedro F. Grabois, da Rede Fale; além do Rev João Carlos, da Aliança Batista e do Movimento de Ação e Reflexão Martin Luther King, e Pe Geraldo Lima, CPT RJ e Igreja Católica.
Timóteo Greff falou sobre o trabalho de mobilização nacional da Rede Ecumênica de Juventude: “A Reju é uma rede de juventude nacional em busca dos Direitos da Juventude. É um movimento ecumênico e plural e através dela tive a oportunidade de participar mais ativamente junto a outras religiões. Em 2011 a Reju lançou a sua primeira Campanha Nacional, a Campanha Contra a Intolerância Religiosa. Estamos muito estimulados e tentando mobilizar o maior número de jovens, principalmente no interior.”.
Pedro Grabois expôs a forma de trabalho da Rede Fale: “Fazemos uma ação para que as pessoas orem, manifestem a sua Fé e também se manifestem quanto às questões de injustiças na sociedade. Nós fazemos várias campanhas e buscamos a participação dos jovens em todo o Brasil. Temos uma metodologia que é usada em diferentes campanhas temáticas, que usa o que chamamos de Cartão Ore&Envie. As pessoas participam enviando esse cartão para governos, ministérios, sempre em campanha pedindo uma ação governamental diante de um problema que vem mobilizando a sociedade. Há campanhas em andamento sobre saneamento ambiental e ampliação da rede de atenção às DST/Aids, por exemplo”.
Pedro destaca que o desafio da Fale e da ABUB (Aliança Bíblica Universitária do Brasil) e de outras redes, é de formar uma cultura política nos jovens, mobilizando-os em torno de temas nacionais que afetam não só a eles, mas a toda a sociedade. A Rede Fale e a ABUB participam do Conjuve – Conselho Nacional de Juventude.

 

 
Mesa 4 – Tarde
A última mesa do dia abordou o tema “Questão urbana e violência”, com a participação de Dom Filadélfo Oliveira, Igreja Episcopal Anglicana; Ana Martins Gualberto – KOINONIA e Francisco Potiguara, do Viva Rio.
Dom Filadélfio expôs a sua preocupação diante de tudo que ouviu durante o dia: “Estamos distantes do que Deus nos mandou fazer, na visão cristã. A minha origem é nordestina, pobre, me criei na periferia de São Paulo. Tive uma infância pobre e meus irmãos, que viviam ao meu redor, eram negros e brigava com eles e por eles. Eu via a discriminação e lutava contra isso… As coisas só vão acontecer quando fizermos alguma coisa… Nas falas aqui expostas, as pessoas falaram em ficar de “saco cheio” com a falta de ação das igrejas, das organizações religiosas diante das injustiças e dos temas de discriminação. A igreja tem que estar aberta a esse debate senão ela vai estar alheia, omissa ao que o povo precisa… A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil ainda não é tão grande, mas busca estar presente nas lutas sociais. É claro que isso ainda não alcançou toda a Igreja, a base ainda precisa de informações. Temas como o da intolerância religiosa, por exemplo, ainda está começando… Há uma discriminação, por exemplo, às religiões de matriz africana. Isso está em evidência hoje. Temos que sentar com cada uma dessas religiões e igrejas para debater o que cada uma tem a trazer para esse debate”.
 
Redes Sociais foi destaque no Seminário
Pela primeira vez KOINONIA disponibilizou em tempo real material produzido no Seminário. Foi disponibilizando ainda, um e-mail para a participação à distância através do programa de bate-papo MSN, com o envio de questões às mesas de debate. As discussões apresentadas pelas mesas foram disponibilizadas por meio das páginas de KOINONIA nas redes sociais Twitter (http://twitter.com/KOINONIApes) e Facebook (http://www.facebook.com/profile.php?id=100002424492832). O site de KOINONIA (www.koinonia.org.br) e o Portal Ecumênico (http://portalecumenismo.net/splash.html) também participam dessa rede de comunicação.
 
Veja as fotos do Seminário através do link do Picasa:
 
O áudio da segunda Mesa do Seminário, que teve como debatedores Ronaldo dos Santos (Conaq) e Marília Schüller (KOINONIA/ACT Aliança), com moderação do Rev Nilo Silva, acessando: http://www.youtube.com/watch?v=1Q88TCdomeI
 
 

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