AIDS e Religião um diálogo possível

Carolina Maciel

 

Entre os dias 29 e 30 de outubro, o programa Saúde e Direitos de KOINONIA – Presença Ecumênica e Serviço realizou em São Paulo o seminário “FORTALECENDO LAÇOS – O papel das instituições religiosas na luta contra a AIDS – incentivo ao diagnóstico precoce. Um dos preletores do evento foi o Reverendo da Igreja Presbiteriana do Brasil, André Renato Navarro.
 
A temática abordada pelo reverendo foi “AIDS e religião” onde discutiu-se o caminho possível para um diálogo e reflexão acerca do tema no momento em que as lideranças religiosas enfrentam o assunto por meio do respeito, da compreensão e da esperança. Estas são as observações do reverendo quando perguntado a ele sobre os tipos de avanços que esses encontros, palestras, eventos como este realizado por KOINONIA permitem e dentre outras aplicações considera: “quebrar resistências e demonstrar que o dialogo sempre será possível, quando houver respeito, compreensão e esperança. Palavras mágicas que abrem portas, saltam montes.”
 
Perguntado sobre a representação deste seminário nas reflexões dele como líder religioso, o reverendo, disse que foi um meio de sair do lugar e uma das maneiras de permitir que o outro se achegue, além da possibilidade de conhecer novas pessoas entendendo que o Homem é um projeto de Deus, sobretudo, através de um espaço onde as diferenças puderam ser experimentadas em unidade.
 
Para tanto, o líder religioso, percebe que o movimento possível para que haja o diálogo sobre a temática AIDS e Religiões é através daqueles que gravitam na periferia, por que é por meio dessas pessoas que é feita a mobilização daqueles que mantém comunhão. Sobretudo, por entender “a igreja/instituição somos nós, é começando de nós que conseguimos chegar ao outro. É sempre o primeiro passo, alguém tem que fazê-lo, que sejam aqueles com maior facilidade de locomoção”.
 
Sobre a limitação do diálogo sobre o tema nas igrejas ele diz: “O medo paralisa as pessoas. Penso que muitas vezes fazemos o trajeto de nossas casas pra escola/trabalho/ou qualquer lugar, e fazemos isso sempre na mesma direção, mesma calçada e aos poucos isso vai limitando e de limitando nossa visão de mundo. Quando invertemos a direção vislumbramos coisas que não eram possíveis naquele movimento. Quando lançamos fora o medo conseguimos refletir a imago Dei”.
 
O assunto sobre o tratamento das igrejas com os soropositivos também foi uma questão levantada e que o reverendo esclareceu a sua forma de perceber e de entender o papel das instituições religiosas. Disse; não acreditar que o fato de alguém ser soropositivo, ou sorodiscordante, loiro, negro ou asiático seja a forma adequada de receber ou abraçar alguém dentro das igrejas. E que, na verdade, a igreja se preocupa com aqueles que estando no mundo chegaram ao fundo do lamaçal. Quando o sujeito tá todo arrebentado acaba não tendo poder de barganha. É aceitar ou aceitar. O acolhimento religioso precisa ser anterior ao adoecer ou o se perder. Precisamos amar as pessoas como se não houvesse o amanhã, já dizia a canção. Outra possibilidade é a instrumentalização de pessoas ou grupos pra fazer esse link.
 
Sobre a forma de ser tratada a temática da AIDS com a membresia das igrejas o reverendo salientou que a melhor forma para esta atuação é aplicando a Palavra de Deus. Que, por sua vez, é rica em exemplos e possibilidades. Sobretudo por atuar e vivenciar as aplicações, os entendimentos através da Palavra, o meio pelo qual realizam o culto/celebração da fé. E observa que basta olhar para a maneira como Cristo trata e acolhe as pessoas, indicando por si só a direção a seguir.
 
E para além de todo o preconceito que envolve o tema da AIDS/soropositivos percebe que o que dificulta um diálogo maior, com mais envolvimento, com engajamento político e religioso o que falta, na verdade, é pensar que esta situação nunca poderá acontecer com qualquer indivíduo, sobretudo, porque existe o costume de criar um ideal de felicidade e que há uma luta constante para que nada impeça das pessoas chegarem lá. E diz: “Quanta ilusão!”. Por fim, aplica a advertência paulina na passagem bíblica: “Aquele que está de pé cuidado para que não caia”.

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