Rio de Janeiro tem ato contra intolerância

IMG_2051Depois de um ano marcado pela ascensão definitiva da intolerância religiosa no debate público nacional, em parte pelo aprofundamento das violências, representantes de várias tradições de fé se reuniram no auditório da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Rio, na última quinta (19), para mais uma vez reafirmar a importância da liberdade de crença e de um Estado efetivamente laico. Cerca de 150 pessoas estiveram no evento para dizer “basta”.

Segundo o babalawô Ivanir dos Santos, interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR), o prefeito Marcelo Crivela foi convidado a participar, mas não apareceu. Durante a campanha Crivela foi um dos candidatos que assinaram a “Carta Compromisso com os Direitos Humanos Contra a Violência, Racismo e Intolerância Religiosa”, com diretrizes para a promoção do respeito à diversidade e às garantia individuais e coletivas.

Representando o Ministério Público estadual, Eliane de Lima Pereira, assessora de direitos humanos e minorias, falou de como o órgão passa a encarar a questão da intolerância. “Minha presença aqui é antes de tudo uma manifestação de apoio e a expressão de que o MP estadual elege a defesa da liberdade religiosa como prioridade, porque entendemos que a diversidade é fundamental para o regime democrático”, destacou.

O xeque Rodrigo Jalloul, primeiro brasileiro nato a ser oficialmente reconhecido como clérigo xiita, lembrou que apesar de um direito universal, a escolha de que religião seguir ainda é, na prática, um privilégio em muitos lugares do mundo. “A oração é a base de minha religião e ela não me convida a pregar o ódio. Também não vejo diferença na essência das muitas religiões. O Brasil é um dos poucos países em que podemos professar nossa fé e isso é importante porque, em seguindo uma religião – seja ela qual for -, pelo sentido básico delas, não tem como sermos levados a atos de intolerância”, concluiu.

Na oportunidade também foi lançado o livro bilingue “Intolerância Religiosa no Brasil”, que traz dados e análises de especialistas sobre o problema, além de contribuições para seu enfrentamento. De acordo com a pastora luterana Lusmarina Garcia a publicação é mais um instrumento que ajuda a compreender a necessidade de um compromisso profundo tanto do Estado quanto da sociedade com a superação da intolerância. “De nossa parte, nessa caminhada temos mostrado que é possível, cada qual em sua religião, descobrir no outro, no diferente, um parceiro e uma parceira de vida. Esse movimento é em si um grande exemplo de como se produz uma quebra no ciclo de intolerância”.

 

Jovens vestem branco contra a intolerância religiosa

15994957_1158258364228156_3912410999800524614_oDe 19 a 21 de janeiro (Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa), jovens de todo o Brasil vão se mobilizar para pedir o fim da discriminação baseada na crença. É a campanha “Eu visto branco pela liberdade de fé”, encabeçada pela Rede Ecumênica da Juventude (REJU). A iniciativa propõe que pessoas de todas as tradições religiosas postem em seus perfis de redes sociais, principalmente, vídeos e imagens contendo mensagens que destaquem a importância do respeito à diferença e de um Estado laico pra valer.

A página do evento no Facebook, além de propor formas de engajamento – sempre usando a tag #VISTOBRANCO -, disponibiliza materiais de campanha como arte de postagem e imagem que pode ser adicionada à foto de capa.

15975206_1158252324228760_3171813557465021646_oPara Jonathan Félix, Facilitador Nacional da REJU, embora a intolerância venha crescendo e gerando conseqüências cada vez mais graves, ainda é preciso bater na tecla de que ela existe e é um dos principais problemas para comunidades religiosas inteiras, para as quais fé e identidade estão interligadas.

 “É preciso mostrar que, infelizmente, existe intolerância religiosa no Brasil. Às vezes as pessoas acham que é só a questão de ser politicamente correto, e que isso é chato. Na verdade, somos uma sociedade preconceituosa, racista e achamos que é piadinha. Muitos terreiros são vandalizados no Brasil é isso é algo muito forte. Segundo os dados da Secretária de Direitos Humanos do Governo Federal, nos últimos cinco anos as denúncias de intolerância religiosa, cresceram 3.076%. Nossa campanha precisa fazer alguma coisa para mudar essa realidade”, comenta.

As vítimas mais freqüentes das agressões intolerantes são os religiosos de matriz africana. No Estado do Rio de Janeiro, por exemplo, diferentes levantamentos referentes a épocas também distintas, como o da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR), o do Centro de Promoção da Liberdade Religiosa e Direitos Humanos (Ceplir) e o de uma pesquisa da Puc-Rio, apontam que em cerca de 70% dos casos de intolerância, os ataques foram contra adeptos das religiões de matriz africana.

“Por isso o tema desse ano é ‘Seu racismo mata o meu axé”, diz Fernanda Scherer, Facilitadora REJU Rio Grande do Sul. “Visibiliza um problema histórico que encontra profundas raízes num racismo presente na sociedade brasileira, que se manifesta no meio religioso, político e social. As religiões de matriz africana, com sua origem negra, sofrem constantemente por manter suas crenças e tradições. Essas crenças são marginalizadas, criminalizadas e demonizadas”, completa.

“Para participar da campanha é simples, só pedimos que entre os dias 19 a 21 de janeiro as pessoas publiquem uma foto, de forma pública, em suas redes sociais vestido branco com as hashtag #Reju #VistoBranco #RespeiteMeuAxé”, explica Fernanda.