Não Esqueceremos: Atos em Minas Gerais marcam vitórias um mês após o desastre em Brumadinho

Ato em memória e por justiça em Brumadinho no dia 25/02/19 – MG. Foto: Christian Aid Brasil

Exatamente um mês após o desastre causado pelo rompimento da Barragem da Vale do Rio Doce de Córrego do Feijão, Brumadinho, MG, atos e celebrações aconteceram em Brumadinho em Belo Horizonte para marcar as conquistas judiciais conseguidas até o momento.

Com a voz das pessoas atingidas, ainda sem total amparo, e com muitos familiares desaparecidos, a mobilização da solidariedade lembrou o luto na luta para fazer valer a reparação e buscar o consolo para tanto sofrimento. Religiosos e religiosas, como se somaram a movimentos sociais nessa ação de memória, denúncia e oração.

Em Belo Horizonte as atingidas e atingidos ocuparam a Praça Sete para se expressar. Em Brumadinho as ruas centrais foram ocupadas até um ato em frente à ponte sobre o Rio Paraopeba. Outros atos se seguiram, como em Salvador – BA e ao longo do Rio já bastante contaminado, alcançando celebrações ao longo do Rio São Francisco até a sua foz, em Penedo – AL.

Nesse dia e nos dias seguintes também tem sido um tempo de, no luto, celebrar a primeira vitória conquistada na interlocução entre famílias atingidas, ministério público,

Ato em Belo Horizonte no dia 25/02/2019. Foto: KOINONIA.

defensoria pública, representantes da empresa Vale, perante juízo.

Após decisão judicial a Vale deverá pagar:
1) Para as pessoas do Município de Brumadinho, mensalmente por 12 meses
– Um salário mínimo (s.m) para cada adulto;
– Meio salário mínimo para cada jovem ou adolescente;
– e 1/4 de salário mínimo para cada criança.

2) Para pessoas ao longo do Paraopeba, que vivem em um raio de 1km, para cada lado da calha do Rio:
– As mesmas indenizações provisórias decididas para Brumadinho: 1 s.m. por adulto, 1/2 s.m por jovem ou adolescente e 1/4 s.m. por criança, mensalmente por 12 meses.

O Fórum Ecumênico ACT Brasil (FEACT – Brasil) esteve presente no ato em Belo Horizonte e segue trabalhando na região de Brumadinho e em localidades seguindo o curso do Rio Paraopeba.

Por mais 75 dias, o FEACT – Brasil seguirá atuando com parceiros e lideranças comunitárias, na coordenação das ações. Uma equipe de facilitadoras e facilitadores, promotoras e promotores e lideranças locais vai garantindo a implementação da resposta humanitária, estabelecendo comitês com as pessoas atingidas, para a gestão adequada das atividades.

Da perspectiva inicial cresceu o número de famílias identificadas, e que, após 30 dias do desastre, não receberam sequer a primeira ajuda de segurança alimentar. Um atendimento já estimado em 960 famílias está em curso, e ficou evidente a necessidade de ajustar a estratégia da ajuda psicossocial, para o cuidado com a proteção solidária das vítimas nos próximos dias da ajuda humanitária às famílias – incluindo dimensões de empodramento das atingidas para diálogos, negociações e incidências por seus direitos básicos.

Para sua atuação, o FEACT – Brasil recebeu apoio do Fundo de Resposta Rápida da ACT Aliança, uma coalisão com sede em Genebra (Suíça), que reúne 151 organizações baseadas na fé e igrejas, trabalhando juntas em mais de 125 países.

É tempo de solidariedade no luto e de celebrar a esperança na luta!

#NãoEsqueceremos #Brumadinho #NãoFoiAcidenteFoiCrime

Fórum Ecumênico ACT Brasil atua com fundo de resposta rápida da ACT Aliança em Brumadinho

Era uma sexta-feira, dia 25 de janeiro de 2019, quando o estado de Minas Gerais, mais uma vez foi surpreendido pelo rompimento de uma barragem da empresa mineradora Vale. Desta vez a cidade de Brumadinho e a reserva do Parque da Cachoeira, município da zona metropolitana de Belo Horizonte, capital mineira; e mais de 220 km ao longo do curso do rio Paraopeba.

As imagens divulgadas mostram como de repente um mar de lama avança, liberando mais de 12 bilhões de litros de fragmentos de resíduos minerais, com rejeitos da mineração de ferro. Há apenas 3 anos, outro desastre ambiental semelhante, fruto de negligências, acontecia na cidade Mariana, também Minas Gerais.

Com este cenário, o Fórum Ecumênico Brasil (FEACT), membro da Aliança ACT, solicitou uma ajuda de emergência para suporte humanitário na região. A solicitação foi atendida, e nos próximos 3 meses, o Fórum vai atuar em conjunto com parceiros e lideranças comunitárias nos processos de coordenações da ação.

A ação visa o apoio psicossocial para 760 famílias, e entre elas, 150 apoiadas com água, alimentos suplementares de proteína e materiais de higiene para mulheres e crianças.

Neste momento há uma equipe de facilitadores, promotores e líderes locais que vai garantir a implementação adequada da resposta humanitária, estabelecendo comitês operacionais para uma gestão adequada da ajuda.

14 dias após o rompimento da barragem os números do impacto são:
• 760 famílias despejadas afetadas diretamente (3.800 pessoas)
• 5400 famílias evacuadas de domicílios (27.000 pessoas) de Brumadinho
• 157 óbitos confirmados – 134 pessoas identificadas
• 192 pessoas resgatadas
• 182 pessoas desaparecidas
• 250 casas danificadas
• 25 casas totalmente destruídas.

Meu Corpo, Minha Fé

No último sábado, 02/02, aconteceu a Roda de diálogo Meu corpo, minha fé: violências e abusos da religião. Parceria entre KOINONIA, Reju São Paulo (Rede Ecumênica da Juventude), Evangélicas pela Igualdade de Gênero e Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito.

Pudemos escutar grandes contribuições de mulheres como Ivone Gebara, teóloga, filósofa e freira católica; Priscila Queiroz, assistente social e ativista da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito; Samantha Lodi, comunicóloga, historiadora, doutora em Educação, membro da ABPE (Associação Brasileira de Pedagogia Espírita) e do Coletivo Educacional de Mulheres Maria Lacerda de Moura. Maryuri Mora Grisales, teóloga, cientista da religião e ativista da Rede Ecumênica da Juventude; Iyá Adriana Toledo , zeladora do Ilê Axé Omó Nanã e integrante da Frente Interreligiosa Dom Paulo Evaristo Arns por Justiça e Paz. Sarah de Roure, coordenadora do programa para o Brasil da Christian Aid Brasil, Valeria Vilhena, teóloga, pesquisadora e fundadora da Evangélicas pela Igualdade de Gênero; e Angelica Tostes, teóloga, ativista inter-religiosa e da Rede Ecumênica da Juventude.

Ester Lisboa, de KOINONIA, também pode compartilhar sobre a iniciativa da Rede Religiosa de Proteção à Mulher Vítima de Violência, que aposta no potencial das comunidades religiosas para o acolhimento, buscando transformá-las em espaços de informação e prevenção da violência contra mulheres de diferentes faixas etárias.

O encontro, também proporcionou momentos de desabafos, compartilhar de sentimentos e vivências que nos fazem refletir para agir. Movimentos como Católicas Direito de Decidir, Diversidade Católica, entre outros.

“A gente entende que nossa missão profética é vir afirmar a nossa presença dentro dos espaços religiosos. E mostrar que a igreja cristão não é essa aí que está e não nos representa. Não é essa igreja cis hetero normativa, branca. É uma igreja diversa, é uma igreja plural, que reflete a imagem de um Deus plural, de um deus que é trindade, que nós acreditamos”, contribuiu Cris Serra, da Diversidade Católica.

De luto, à luta!

Também tivemos a honra de contar com uma participação à distância de Sabrina de Campos Bittencourt, ativista que há anos trabalhou denunciando e lutando contra a violência e opressão para com as mulheres nas comunidades religiosas, como no último caso noticiado de João de Deus. Sabrina, de 38 anos nos deixou no mesmo sábado, cometendo suicídio aos 38 anos.
Ela era porta-voz do movimento COAME – Combate ao Abuso no Meio Espiritual, responsável coletivamente em conjunto com Grupo Vítimas Unidas, por denunciar, acolher as vítimas e articular com a sociedade civil os crimes cometidos por líderes religiosos.

KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço se solidariza com a famílias e amigos de Sabrina, na certeza de que sua luta não será em vão nesta jornada por um mundo mais justo e igualitário para todas as mulheres, todas as pessoas.

Confira as fotos do encontro: https://goo.gl/KTMr2S

 

Fotos e texto: Natália Blanco/ KOINONIA.

Relato: Juventude latinoamerica se reúne em El Salvador para discutir Água, Alimentação e Justiça Climática

É tempo de reconciliação com a Pacha Mama*

No dia 1 de novembro havia se passado 3 dias do resultado das eleições presidenciais no Brasil e eu estava indo pra San Salvador (capital de El Salvador, um país de cerca de 21 mil km² de extensão. O estado de São Paulo no Brasil, onde vivo, tem cerca de 248 mil km²). Estava a caminho da EcoSchool 2018 “Água, Alimentación y Justicia Climática” para me juntar a um grupo de jovens de diversos países da América Latina e Caribe para 12 dias de trabalho intenso sobre a temática. A iniciativa é do Conselho Mundial de Igrejas em parceria com o escritório da ACT Aliança para a América Latina, a qual KOINONIA e outras organizações brasileiras fazem parte.

Fui decidida a desligar de tudo que vinha pensando/passando no meu país. Mas como o “vento sopra onde quer” (na linguagem ecumênica), fui surpreendida.

Bem, falar sobre água, alimentação e justiça climática sob por meio de uma perspectiva teológica é bastante desafiador. Porque quando nós, como pessoas e organizações, instituições baseadas na fé, nos comprometemos com os valores de justiça do reino nossas responsabilidades se multiplicam.

Logo no primeiro dia da EcoSchool escutamos Ángel María Ibarra Turcios, vice ministro do Meio Ambiente e Recursos Naturais do governo de El Salvador, que nos apresentou o contexto do país em relação aos temas de água, clima e alimentação, frente aos abusos praticados por grandes corporações, na privatização de recursos naturais e completa despreocupação com as vidas que ali habitam.

“Este ano El Salvador enfrentou a maior seca dos últimos 40 anos, prejudicando abastecimento de água, alimentos, energia. Enquanto isso sabemos que 6 empresas transnacionais controlam o mercado mundial”, afirma Ibarra. Famílias de baixa renda sofrem com a escassez de água. Mil litros de água potável custam cerca de cinco dólares no país.

“O ser humano se divorciou da Mãe Terra, nossa Pacha Mama. Precisamos lembrar que somos seres vivos, somos parte e dependemos dela Oiukumene significa isso, casa comum”.

É preciso romper com as lógicas colonizadoras, que se tratando das igrejas cristãs, são muito presentes ainda hoje na América Latina, e nos voltarmos para aprender com aqueles e aquelas que sempre cuidaram desta terra sagrada. Habitar a casa comum, oikoumene, nos proporciona uma chance de nos reconciliarmos com a criação e aprender com os conhecimentos milenares dos povos originários que resistem. Dessa forma uma ruptura radical com os padrões de consumo e de produção impostos pelo sistema imperialista é possível.

Ouvimos movimentos como a Via Campesina, e sua trajetória de resistência na defesa da terra e produção agroecológica. Os desafios do Foro Del Agua de El Salvador, e como movimento conseguiu unir diferentes movimentos sociais, como o ARA (nome) a Kawoq, movimento de ecofeministas, todos juntos na luta pela água como um direito humano inegociável.

KOINONIA tem tido a experiência de assessoras comunidades na região do Baixo Sul da Bahia que atuam diretamente com a questão da produção agroecológica. Como o caso da Feira Feira Agroecológica de Mulheres em Camamu, que este ano já está em sua 7º edição. Na feira, mulheres de diferentes cidades da região expõem produtos agrícolas e artesanais, cultivados e criados por elas. Ao mesmo tempo debatem o problema da violência contra a mulher, além dos caminhos para solucioná-lo, principalmente, pela via das políticas e serviços adequados ao dia a dia da mulher negra rural.

Segundo Sara Garcia, Ecofeminista do movimento Kawoq e integrante do Foto Del Agua de El Salvador, “temos defendido nosso corpo, terra e território. E fazemos um trabalho de incidência para formação e sensibilização das comunidades. Estamos como mulheres defensoras, lutando ao lado de todo movimento nacional aqui em El Salvador por meio da Aliança Nacional Contra a Privatização”.

“El água no se vende, se cuida y se defende!” (Água não se vende, se cuida e defende!)

É tempo de reunir forças e resgatar esperanças

Seria muito difícil escolher um único momento marcante de toda a experiência durante estes 12 dias porque muito mais que as reflexões teóricas e práticas, com excelentes especialistas, exposições técnicas e discussões em grupo acerca desses três temas; pude ver como aprendemos no encontro com outrxs.

A escuta, a troca, os questionamentos, o “confronto” de realidades. E no meio desse confronto, reconciliação. E a partir de todo aprendizado também pudemos planificar ações para atuarmos regionalmente em nossos países, comunidades e organizações.

Também ouvimos relatos de resistência como o poema da companheira Patrícia Morales sobre Dom Oscar Romero, canonizado recentemente pelo Papa Franciscco  e defensor dos mais pobres e oprimidos. Romero foi voz profética durante um período tenebroso da história do país e morreu assassinado enquanto presidia a Santa Missa, no dia 24 de março de 1980, por um atirador de elite do exército de El Salvador.

Patrícia recitou seu poema durante a visita que realizamos pela casa onde o Monsenhor viveu na capital. Com a voz carregada de emoção e os olhos marejados pelas recordações daquele tempo:

Sucedió un Domingo de Ramos

Voy a contar una historia
 Algo que pasó de verdad
 Todavía vive en mi memoria
 Lo sucedido en Catedral...
 
 En Catedral comenzó su jornada
 En Catedral alzó su voz
 Catedral es ahora su última morada
 A Catedral llega el pueblo
 Con su dolor
 
 El 24 de marzo lo asesinaron
 El 30 era su funeral
 Fue un domingo, Domingo de Ramos,
 Domingo de luto
 en Catedral
 ….
 Era inevitable
 Aquel mar de gente era inevitable
 ¿Cómo contener a un pueblo herido
 por la pérdida de un hijo?
 ¿Cómo se controla un cuerpo
 cuando le amputan un miembro?
 
 El dolor era grande
 Siempre duele que se derrame la sangre
 Siempre que muere un hijo
 Llora la madre
 
 Era inevitable.
 
 Y ellos lo sabían
 los cobardes lo sabían
 y tenían miedo...
 
 Aquel mar de gente
 había venido desde lejos
 
 Desde Aguilares
 Desde Chalate
 Desde Cojute
 Desde San Pedro
 
 Desde todos los rincones
 de nuestro suelo
 llegaron hombres, mujeres y niños,
 jóvenes y viejos
 sacerdotes, religiosas,
 intelectuales y reporteros
 
 Hermanos de otros países
 se unieron a nuestro duelo
 acompañando el lamento
 de nuestro pueblo
 
 Aquel mar de gente
 inundaba el centro
 desbordaba las plazas
 las aceras, las calles,
 el templo
 
 Largas filas de manifestantes
 venían desfilando
 desde el Parque
 su jornada era de luto
 pero también de combate
 denunciando y condenando
 las masacres
 
 Al frente de las filas
 iban los obreros
 y con el puño en alto
 y en silencio
 rindieron homenaje
 a Monseñor Romero
 
 Los aplausos rompieron el silencio
 Al ver llegar tan dignamente
 Aquella manifestación
 De dolor sincero
 
 La gente reunida
 solidariamente
 compartía aquel día
 Un riesgo evidente
 La rabia de los perros
 Esa rabia de muerte
 No soportó
 nuestro gesto valiente
 
 Su cobardía hizo
 Estallar una bomba
 Y surgir la ráfaga
 Y otra bomba
 Y otra bomba
 
 El horror se regó
 Y comenzó la estampida
 y entre el humo y los gritos
 la gente caía
 
 La multitud corrió desesperadamente
 Gritando
 Temblando
 Llorando
 Rezando
 
 Aquel mar de gente
 Estaba en agonía
 Nuevamente
 Le asestaban una herida
 
 Decenas de muertos
 Fue la respuesta
 De los golpes, la asfixia,
 Y la balacera
 
 Las calles quedaron vacías
 Solo el dolor vagaba en las esquinas
 
 En medio de la plaza
 Esta imagen se prendió en mis pupilas:
 Una montaña de pañuelos,
 Zapatos, carteras,
 Y las palmas esperando
 Su agua bendita
 ..…
 
 Mientras tanto
 Monseñor Romero
 Quedó en su ataúd
 Ya no hubo entierro
 Y desde algún lugar
 Fue mudo testigo
 De la masacre de aquel domingo
 ….
 
 Los guardias y soldados
 No escucharon su llamado
 Oyeron la voz de su amo
 Cobardemente
 Ordenando dar muerte
 La mañana de aquel
 Domingo de Ramos

Patrícia Morales
 (San Salvador, Semana Santa de 1980, escrito a mis 17 años)

E como disse lá em cima que “o vento sopra onde quer”, eu não consegui me desligar de tudo que vinha passando. Não é novidade, a eleição no Brasil foi noticiada no mundo inteiro. As notícias sobre como denominações evangélicas se apropriaram de um discurso de ódio para colocar em prática um projeto de poder correram.

E no dia que fui surpreendida pela imagem do “ninguém solta a mão de ninguém” durante o momento de reflexão em grupo, entendi o luto pelo qual estava passando sem perceber (como o querido amigo Dario Barolin disse).

Mas ao mesmo tempo que sofri, vivi na prática isso de ninguém soltar a minha mão. Pude sentir as mãos, os ombros, os choros, as palavras e o carinho. É no encontro com o outrx que nós nos encontramos, Cristo nos ensina isso.

E neste espírito de reconciliação comigo mesma, meus companheiros e companheiras, é que retorno com forças e esperanças para contribuir regionalmente na luta em defesa da criação e tudo que a envolve.

A EcoSchool 2018 é um esforço conjunto dos programas de água (rede ecumênica de água) a Aliança Ecumênica de Incidência (EAA) o programa de Justiça Econômica e Climática do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), juntamente com o Programa Global de Justiça Ecológica da FUMEC (WSCF), ACT Aliança ALC, Christian Aid, a Federação Luterana Mundial e da Universidade Luarana Salvadorense, com o apoio da Igreja Evangélica Luterana na América (ELCA) e da organização Infaith.

*Pacha Mama – divindade máxima que representa a Mãe Terra, presente em diversas nas culturas indígenas dos povos originários latinoamericanos.

“Se estamos pregando exclusão em nome de Deus, é hora de nos perguntarmos: sobre qual deus estamos falando?”

Por Natália Blanco/ KOINONIA
Amanda Mukwachi –
Foto: Natália Blanco/ KOINONIA

Essa foi a resposta de Amanda Khozi Mukwashi, diretora executiva da Christian Aid*, quando perguntei sobre a onda de intolerância que ficou escancarada nestas eleições no Brasil, inclusive dentro de comunidades religiosas.

Filha de pais zambianos, Amanda nasceu no Reino Unido. É formada em Direito com mestrado em Direito Econômico e tem mais de 20 anos de atuação no trabalho de combate às desigualdades com foco nos direitos das mulheres.

Amanda chegou na Christian Aid em 2015, sendo que desde abril de 2018 assumiu o cargo de diretora executiva da organização. E antes de ingressar na Christian Aid, passou pelo Programa de Voluntariado das Nações Unidas (UNDP), na Alemanha; VSO International, com sede em Londres; foi Chefe de Relações Externas e Chefe de Programas na Skillshare International UK, e Coordenadora de Mulheres em Negócios no Mercado Comum da África Oriental e Australia em Lusaka.

Em setembro, Amanda esteve no Brasil ao lado de Rowan Williams para acompanhar o trabalho da Christian Aid no país, e se encontrar com representantes de comunidades religiosas e organizações ecumênicas em São Paulo.

Entre um compromisso e outro, pudemos conversar sobre suas impressões, anseios e desafios do ecumenismo no combate às injustiças:

 

– Como começou sua trajetória no movimento ecumênico? Por que trabalhar com Direitos Humanos?

Desde que tenho lembranças, eu sempre tive vontade de trabalhar com justiça e na luta contra a desigualdade. Eu estudei direito na universidade e acho que meu primeiro interesse por estes problemas, da luta por direitos iguais, foi quando eu estava terminado a faculdade em Zâmbia. O movimento de mulheres estava com muita força pelos direitos iguais, e na época eu senti o poder deste movimento. Sou cristã e quando olho para a Bíblia, vejo um Deus que criou machos e fêmeas a sua imagem e semelhança, igualmente. Tudo que veio depois disso, as desigualdades, são convenções humanas, foram feitas por humanos, e não porque Deus quis assim.

Então fui lentamente começando a trabalhar com direitos humanos, especificamente com o tema do empoderamento econômico para mulheres. Quando eu me mudei para o Reino Unido, eu fui trabalhar em uma organização que trabalha com tema da violência doméstica e outras minorias.

– Como foi começar o trabalho na Christian Aid em 2015?

Quando veio a oportunidade de trabalhar com a Christian Aid foi uma surpresa, eu realmente queria trabalhar por algo que minha fé acredita, algo mais relacionado aos meus valores cristãos, mas também com algo que eu acredito: a forma que Deus quer que a gente viva as nossas vidas e nossos valores.

Mas não é apenas desse modo que algumas pessoas interpretam, porque nós destorcemos o evangelho, nós destorcemos a mensagem de Cristo para que a gente siga nossa própria agenda. Ao invés de viver da forma que Deus gostaríamos que vivêssemos. Então foi por isso que eu aceitei vir para a Christian Aid, e dessa forma trabalhar com os direitos da mulheres.

 

– Por que mulheres?

Eu acho que as mulheres provavelmente são as pessoas mais marginalizadas e oprimidas no mundo. Quando você olha a questão da pobreza, você vê faces de mulheres; quando você olha para problemas de abusos, você vê rostos de mulheres; quando você encara as injustiças, na maioria dos lugares, você vê rostos de mulheres. E por isso acho que nós temos que trabalhar para colocar as mulheres onde elas deveriam estar, que é lado a lado aos homens.

Há algumas semanas eu estava falando em Londres, e disse “Deus criou o homem e a mulher igualmente, a questão é como nós distorcemos”. E acho que é contra isso que temos que lutar, contra essas ideias distorcidas.

E agora, mais do que nunca, porque nós vemos guerras em diferentes partes do mundo, na África, na América Latina, na Ásia, nós vemos essas grandes desigualdades, nós vemos as pessoas enfrentando múltiplas desigualdades, não é apenas uma desigualdade, são em diversos aspectos. Você vê pobreza, você vê falta de emprego, você vê a falta de acesso à saúde, você vê o crescimento de muitas doenças.

 

– O que chamou sua atenção nestes dias aqui no Brasil?
Rowan Williams e Amanda Mukwashi, Christian Aid – Foto: Natália Blanco/ KOINONIA

Nestes dias aqui no Brasil eu fui visitar um grupo de pessoas sem teto. E eu fiquei tão, tão tocada. Cerca de 2.000 famílias ocuparam um prédio abandonado para sobreviver. E quando eu os vi eu me senti muito sensibilizada. Eles vivem em quartos muito pequenos, muito, muito pequenos. É tão difícil. Mas sabe, quando eu fui conversar com eles, eu fiquei umas três ou quatro horas lá com eles, eu me senti inspirada. Porque eu vi amor naquela comunidade. Eles cuidam uns dos outros, eles têm tolerância zero em relação a violência doméstica, eles são inclusivos. Realmente não importa sua cor, sua crença, sua sexualidade, eles são inclusivos. Nesta comunidade eu vi amor. Uma experiência real de amor. Então eu pensei “é possível”.

 

– E qual o potencial que você vê no movimento ecumênico para combater injustiças hoje?

Quando você olha os diferentes movimentos neste momento, em termos de movimentos baseados na fé e teologias, vemos umas mudanças. Eu sei que aqui na América Latina existe a Teologia da Libertação, mas o que a gente vê na maioria dos lugares, vejo no Quênia, Malásia, Zimbábue, é o crescimento da ideia da prosperidade gospel. E eu acho aconteça o mesmo processo aqui na América Latina. Não é meu trabalho criticar essas teologias, ou o gospel, mas, qual é a experiência dessas pessoas no chão, na realidade? Essa é minha pergunta. Essas pessoas de fé acreditam que estão vivendo, na prática, os valores que nossa fé diz que precisamos viver?

Encontro parceiros e Christian Aid em São Paulo. – Foto: Natália Blanco/ KOINONIA

Quando nós falamos sobre dignidade, por exemplo, qual é o valor cristão sobre dignidade? Minha questão é: eu estou contribuindo para a dignidade de vida de outras pessoas? Como essa dignidade se mostra? Qual é a dignidade? Quando crianças dormem no chão das ruas, como a dignidade aparece para elas? Quando uma pessoa, mesmo dando duro, trabalhando muito, não tem como colocar comida na mesa de casa, não tem como comprar roupas, não tem condições melhores de vida, qual a dignidade dessa pessoa? Quando mulheres sofrem com a violência doméstica, que é tão alta, e quando as pessoas das comunidades religiosas ficam em silencio perante essas situações, qual é a dignidade? Quando crianças são abusadas e exploradas sexualmente, e as pessoas ficam caladas. Qual é a dignidade?

Então, eu penso que é hora de, como pessoas de fé, como líderes de fé, como organizações baseadas na fé, nós não podemos ficar em silêncio. Essa é a oportunidade, esse é o potencial. Eu gosto muito da história de Martin Luther King Jr. Porque ele falou sobre problemas de pessoas comuns, nas ruas, ele falou sobre pessoas, fé e realidade juntas. Esse é o nosso potencial.

Nós precisamos trazer fé, para que isso se torne uma experiência real na vida das pessoas. Que as pessoas possam ver que nós somos diferentes mesmo. E quando falamos sobre dignidade, nós respeitamos todo ser humano, nós respeitamos o que produzimos, o trabalho que fazemos, somos inclusivos. E que lutamos declaradamente pela justiça.

Então eu acho que esse é o grande potencial para o movimento ecumênico neste momento. Politicamente, economicamente e socialmente. Precisamos fazer as pessoas acreditarem de novo. A terem esperança de novo.

 

– Como você vê essa onda de intolerância ao redor do mundo? Aqui no Brasil estamos vivenciando isso, agora nas eleições isso está muito evidente, e muitas pessoas religiosas entraram nessa onda.

Olha, é obvio que eu não posso dar uma opinião sobre pessoas individualmente, mas uma coisa que eu sei é: O Deus de quem nós falamos, não é um Deus de exclusividade, Ele é totalmente inclusivo. O respeito é por todo ser humano. Mulheres, homens, crianças, e qualquer pessoa entre isso. Sabe quando Jesus ficou furioso quando disse que transformaram a casa de Seu Pai em um mercado? Para mim nós estamos transformando o gospel e a mensagem de Deus em um mercado.

É tudo sobre mim, individualizado. E quando a gente olha para a mensagem de Jesus Cristo, é uma mensagem de esperança, de inclusão, e eu poderia te dar centenas de exemplos. E tudo o que Jesus quis mostrar é que Deus ama a cada um de nós. Então se estamos pregando exclusão em nome de Deus, é hora de nos perguntarmos: sobre qual deus estamos falando? E não acho que isso seja apenas aqui no Brasil, é um fenômeno mundial.

E como Christian Aid, afinal nós não somos uma igreja, somos uma organização baseada na fé, o que nós estamos tentando fazer, como valores, é ter a certeza de que as pessoas experimentem o amor de Deus.

 

*A Christian Aid é uma agência de assistência e  desenvolvimento de 41 igrejas britânicas e irlandesas fundada em 1941 no Reino Unido, com o objetivo de apoiar o desenvolvimento sustentável, acabar com a pobreza, apoiar a sociedade civil e oferecer ajuda humanitária na América do Sul, Caribe, África e Ásia, incluindo o Oriente Médio. Sua atuação no Brasil acontece desde o final dos anos 1970 para reduzir a desigualdade, lutar por direitos territoriais e territoriais e promover a justiça de gênero, ambiental e tributária.