As vozes que ecoam pra dizer o que se cala – Julho Das Pretas

 

Registro do diálogo com mulheres das Comunidades Quilombolas de Alto da Serra (Lídice-RJ) sobre questões da situação ambiental e das condições de vida em seus territórios que aconteceu no início de Julho. Crédito: Rafael Soares/ KOINONIA

Mil nações
Moldaram minha cara
Minha voz
Uso pra dizer o que se cala
O meu país
É meu lugar de fala.
Elza Soares – música “O que se cala” do álbum Deus é Mulher

Vivemos num cenário em que as mulheres negras são as que mais morrem no Brasil, vítimas de violências (em suas diversas formas), segundo o último Mapa da Violência de 2018. Do total de mulheres assassinadas no Brasil entre 2006 a 2016, 71% são negras, o que representa uma taxa de 4,5 homicídios para cada 100 mil brasileiras.

Desde sempre foi confortável para o sistema deixar para as mulheres negras papéis coadjuvantes ao invés de protagonistas de suas próprias histórias, fazendo o que desejarem fazer. Mas essas mulheres, que parem, embalam, amamentam, cozinham e arrumam também são pesquisadoras, escritoras, professoras, mães, médicas, comunicadoras, líderes religiosas, políticas, contadores, advogadas, donas de casa, artistas, artesãs e tantas outras. Desde sempre.

Desde sempre movendo as estruturas para conquistar o direito ao Bem Viver para elas e à todas as pessoas a sua volta:

“As Mulheres Negras quando se movimentam abalam toda a estrutura da sociedade. Nos movimentamos pelo direito de vivermos bem.

Dizer que “As Mulheres Negras Movem o Brail”, representa as diversas formas e estratégias das mulheres negras no enfrentamento ao racismo, machismo, sexismo, lesbofobias, ódio religiosos, nós sempre nos movimentando através das mais diferentes formas, nos quilombos, nas comunidades, nos terreiros, nas periferias. Foram estas movimentações que conseguiram garantir a identidade da população negra, da família negra, dos espaços negros, da gastronomia negra, da cultura negra e das religiosidades negras.

É extremamente importante nosso lugar de fala independente do lugar onde estejamos. Sim, pois estamos em diversos lugares, em diversos espaços militando e são estas estratégias de pertencimento e de agrupamento que tem resignificado o movimento de mulheres negras, dando visibilidades às diversas estratégias de enfrentamento as violências e opressões em qualquer lugar que estejamos”.

Lindinalva de Paula, 56 anos, mãe, filha de Iemanjá, filha de Mãe Senhora de Ewá do Ilê Axé Omim Ewá. Assessora da Comissão de promoção da Igualdade – Assembleia Legislativa, professora, graduanda em gestão pública, integrante da Rede de Mulheres Negras da Bahia, membro da Coletiva de Mulheres Negras Abayomi, e do Afoxé Kambalagwanze, vice-presidenta do Conselho Estadual das Comunidades Negras – CDCN

 “Ser mulher negra no Brasil é lutar constantemente. Hoje temos iniciativas que olham para a questão dos negros e mulheres, mas pelo fato da mulher negra estar na interseção desses dois campos, elas se tornam muitas vezes um ponto cego. Vemos políticas públicas que falem sobre raça e que não atingem as mulheres negras, e politicas públicas de gênero que só atingem mulheres brancas e não conversam com as mulheres negras.

 

Então pra mim, é lutar pelo reconhecimento da minha dignidade e cidadania, e uma vez consciente da minha condição e da minha ancestralidade, ter esse papel de conseguir fazer a roda girar.

 

A mulher negra acaba sendo a grande comunicadora e propagandista da questões de gênero, nós passamos o conhecimento pela oralidade, nós mais facilmente aprendemos com as mais velhas, e tentamos romper comportamentos racistas e machistas. Então essa luta nem sempre é encharcada de dor, vem de muita força, muito aprendizado, muita escuta. Eu não trocaria nada em meu corpo negro por outra experiência, porque eu consigo entender o que é, historicamente, ser uma sujeita negra e isso me dá força para enfrentar, inclusive os desafios colocados hoje no campo da politica, da saúde, comunicação, entendendo que as saídas nunca passam pelo campo individual, mas sim coletivo.

Juliana Gonçalves, 32 anos, jornalista e ativista dos direitos humanos com foco em raça e gênero. Integra a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial de São Paulo e a Marcha das Mulheres Negras de São Paulo.

“É necessário que sejam ouvidas as vozes dessas milhares de mulheres – vozes que se manifestam com palavras, com gritos, com choro e com risos. É necessário fazer barulho em julho, para que em todos os outros meses se construa o respeito, se fortaleça a luta pela igualdade e se promova a justiça.

 

É necessário falar de fé. Da fé que construiu a resistência das mulheres negras, da fé que agora as mulheres negras – e pobres- escolheram para ter pertencimento e consolo. É necessário dialogar com a fé. É necessário respeitar a fé e as escolhas de quem, por séculos – teve as escolhas negadas.

 

Mulheres negras movem o Brasil quando operam máquinas nas fábricas, quando vestidas de branco trabalham como babás (cuidando de crianças da cor de seus uniformes), quando varrem ruas e escritórios, quando enterram seus filhos vítimas de armas disparadas por outros negros – sejam bandidos ou policiais.

Mas, quem move qualquer lugar pode interferir no futuro desse lugar. E leva-lo para uma realidade melhor. É necessário juntar as forças, aumentar as vozes, desafiar a opressão dizendo que somos muitas, e não estamos sós. Quem move qualquer lugar pode parar esse lugar – e somente voltar a mover quando fizermos que entendam que nossa carne não é a mais barata do mercado.  A nossa carne é o coração do Brasil.”

Nilza Valeria Zacarias, jornalista, evangélica, feminista desde criança – quando passou a ler a Bíblia, e reconheceu a relevância das mulheres na prática e nos ensinos de Cristo. Atualmente trabalha na Coordenação da Frente de Evangélica pelo Estado de Direito, movimento que atua no Brasil desde 2016 – de defesa da democracia, do direito e da justiça.

“Nós sempre movemos o Brasil, com muita luta! Sempre com muita luta, com muita resistência sempre, mais o nosso papel foi essencial como alicerce na construção desse país: procriamos, amamentamos por nós e por outras, plantamos, colhemos, lideramos, guerrilhamos, administramos, ensinamos, morremos e movemos de todas as formas esta nação.

Durante todo o ano estamos na frente de batalha, porém o julho das pretas se estabelece como um mês de referência para todas as nossas atividades, e para mobilização feminina, e um momento para refletirmos todas as nossas ações durante os 12 meses do ano, os 365 dias, as 8,760 horas, 525,600 minutos e 31,536,000 segundos.

Pois assim é a nossa dinâmica, não paramos em um só momento. OI, NÓS EXISTIMOS! ESTAMOS AQUI, E QUEREMOS OS NOSSOS ESPAÇOS. Estabelecer os lugares de fala significa se POSICIONAR diante de sua realidade saindo do anonimato assumindo o Protagonismo, que é o nosso lugar.

Digo com a força de meu Útero e a certeza de meu coração: Muitas são as minhas perspectivas nesse futuro, pois vejo no presente uma juventude com força de continuar. Uma juventude feminina com sede de conquistar, de avançar de estabelecer o seu lugar de fato dentro de todos os espaços, isso é muito legal, porque não existe dúvidas no que já está desenhado. Que o Lugar da Mulher é onde ela quiser”.

Ana Beatriz Bernardes Nunes, Quilombola da Comunidade Remanescente Maria Conga na Cidade de Magé, RJ. Protestante, Professora, Graduada em Gestão Pública, Pôs graduando em História da África e Serviço Social, Ex Conselheira Tutelar por 2 mandatos, Vice-Presidente do (CMDCA Magé) Conselho Municipal de Direito da Criança e Adolescente; Vice-Presidente do CEDINE (Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial. Conselheira na ACQUILERJ (Associação de Comunidades Quilombolas do Estado do Rio de Janeiro) Coordenadora do Movimento Kukongola.

 

 

Ser uma mulher travesti e negra no Brasi é derrubar um hipopótamo por dia para sobreviver em meio aos leões. Hoje temos até um pouco mais de visibilidade e emponderamento, mas só nós podemos dizer o que queremos e como queremos. Meu corpo, minhas regras. Ainda somos vistas como uma afronta para a maioria dessa sociedade misógina, preconceituosa e machista. Despreparada para valorizar uma mulher.

E justamente por isso, me referir como mulher, travesti, negra e periférica só reafirma a minha identidade como pessoa e meu gênero feminino

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Marcella Alves Montteiro, 37 anos, cabeleira e educadora social e membra do Fórum Nacional de Travestis e Tran
sexuais Negras e Negros.

 

Por: Natália Blanco/ KOINONIA