Negra e a Caminho por Dias Melhores: depoimento de Yalorixá Helenice Brito no dia da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha

Foto: Ivana FloresFoto: Ivana Flores

No dia 25 de julho de 2017, aconteceu em Salvador a 5º edição do Prêmio Mulheres Negras Contam Sua História, juntamente com muitos eventos que celebraram o dia da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha. O prêmio é uma realização do Egbé Axé, Associação de Terreiros de Candomblé que atua em prol destas comunidades.

KOINONIA esteve presente neste evento onde conhecemos a história de várias mulheres que têm contribuído para a melhoria do mundo, dentro de suas funções e espaços ocupados. Para ilustrar a riqueza deste momento, trazemos o discurso de Mãe Helenice, que foi uma das homenageadas:

“Quero começar agradecendo aos Orixás a honra de estar aqui neste momento, tomando a benção aos meus mais velhos e cumprimentando aos meus mais novos. Cumprimento a mesa na pessoa de sua presidente, irmã Diana, a quem gostaria de parabenizar pela sua força na criação do Egbé Axé e por esta iniciativa de render homenagem a mulheres negras que fazem a diferença. Parabéns, Diana!

Agradeço a todos por esta homenagem, momento em que nos lembramos de que nossos passos vêm de longe, são passos de resistência que fazem um caminhar ao longo do qual aconteceu o Encontro de Mulheres Afro Latino Americanas e Afro Caribenhas, em 1992. Estamos aqui reunidas em comemoração deste evento, na busca de reforço deste laço.

Gostaria também neste momento de lembrar de nossos irmãos afrodescendentes que são as maiores vítimas da pobreza e da marginalização no nosso Brasil e também em toda em todas as Américas, o que nos dá um maior senso de responsabilidade e compromisso com esta luta com as questões raciais.

Assim, com este compromisso venho construindo minha trajetória de vida, seguindo minha missão religiosa.

Nasci mulher e negra, no bairro do Rio vermelho e muito cedo me mudei para o Engenho Velho de Brotas. Filha de um funcionário público e de uma mulher do lar, que embora tenha ido muito cedo para o orun, me deixou um legado de cumprimento do dever de educar e orientar a vida de seis irmãos menores. Hoje agradeço a Deus e aos Orixás, por todos terem trilhado o caminho do bem. Deixou também um legado de culto à nossa ancestralidade, através da crença e fé nos Orixás.

Logo cedo, no Engenho Velho, percebendo que existia uma grande evasão escolar, dei banca para as crianças mais necessitadas do bairro, preocupada em motivá-las para perceberem que o mundo pode ser grande através do conhecimento.

Aos 14 anos comecei a receber caboclos, junto com minha mãe.

Fui ser técnica em enfermagem, sempre trabalhando no auxílio ao próximo e prestando meus serviços aos que me procuravam.

Neste período comecei a organizar as Giras de Caboclo Boiadeiro, meu grande parceiro e protetor até hoje.

Aos 19 anos casei. Tive quatro filhos homens, sendo todos iniciados na religião de matriz africana, assim como eu fui iniciada pelas mãos de Hilda Gitolú, in memorian, estando hoje no terreiro Pilão de Prata, comandado pelo grande amigo, o líder Pai Air de Oxagian.

Já se vão 40 anos de iniciação. Assisti muitas mudanças, pois sou do tempo que yaô era benção em uma casa e ele tinha orgulho de ser iniciado naquele local escolhido por seu Orixá. Sou de uma época em que não olhávamos nos olhos dos mais velhos e que respeitávamos nosso kelê como instrumento de ligação com o sagrado.

Nesses anos todos, vi aumentar o número de mortes de jovens negras e negros, vi aparecer o termo feminicídio, ligado diretamente à proteção da mulher (que antigamente era direito do homem, que se sentisse traído por uma mulher, lavar sua HONRA com sangue).

Vi traficantes de drogas utilizarem a inteligência de meninas e meninos a serviço deles, transformando suas vidas e de suas mães para sempre. Vi mortes, balas e vidas perdidas.

Vi igrejas que demonizam as religiões de matriz africana serem adoradas por negros e negras que se tornaram intolerantes para com seus irmãos, esquecendo-se de seus ancestrais e enriquecendo estas igrejas enquanto empobrecem suas vidas e se desligam de suas histórias.

Assisti e participei de muitas ações em favor dos direitos dos negros. Surgiram cotas e os cabelos crespos foram expostos com orgulho e determinação. Assim como Martin Luther King presenciei e presencio a resistência, a luta, a determinação em não calar diante de todas as formas de opressão que vivemos atualmente: Genocídio da população negra, Feminicídio, Estupros, a Lei Maria da Penha. Tudo isso somos nós: mulheres negras latino-americanas e caribenhas. Somos a história do nosso povo! Somos a resistência e a consciência!

Assim, ser homenageada nesta data me enche de orgulho e me leva a lembrar também das nossa irmãs líderes de nossa causa como Dandara, Maria Felipa, Luiza Mahin, Luiza Bairros, dentre tantas outras. Isso aprimora minha determinação em continuar com minha cabeça erguida, meus fios de conta, minha roupa de Santo, caminhando e cantando e seguindo a canção, pois nasci mulher, negra e de candomblé. Não existe possibilidade de desistir, de mudar de ideia, de mudar de lado. Existe apenas um caminho a seguir, a luta por dias melhores, a aluta por mais espaço para negras e negros em todas as instancias e locais.”

Yalorixá Helenice Brito, SSA 25/07/2017.

Colaboração: Ana Gualberto