Dossiê Intolerância Religiosa

Criado em 2010 e administrado desde então por KOINONIA, o dossiê reúne conhecimento e informação (desde notícias, passando por artigos acadêmicos, até vídeos) sobre o tema, visando contribuir para a produção de saberes sobre o problema da intolerância religiosa e a qualificação do debate público sobre a questão.

Transversal • Ecumenismo, Superação da Intolerância Religiosa e Justiça de Gênero

O fenômeno da intolerância religiosa tem se desdobrado em inúmeras formas de rejeição à diferença, seja ela sexual, racial ou cultural. Com atenção a essa complexidade, “Ecumenismo, Superação da Intolerância Religiosa e Justiça de Gênero” se constitui num eixo de trabalho norteador de cada prática de KOINONIA, tanto em seus vários campos e territórios geográficos de atuação, quanto no que se refere à diversidade das populações com as quais tem caminhado.

Nesse sentido, as ações voltadas para a defesa e expansão de direitos de comunidades tradicionais (terreiros de Candomblé e quilombos); mulheres; e lésbicas, gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (LGBTTs), passam simultânea e necessariamente pela afirmação da importância do diálogo e da liberdade religiosa. Passam ainda por uma visão do ecumenismo apoiada em três dimensões centrais: o empenho pela aproximação e colaboração entre os cristãos; a aliança solidária com os que promovem a justiça, a paz e a defesa dos bens comuns; e o inadiável e necessário diálogo igualitário entre as diferentes tradições religiosas.

Além de orientar o conjunto de atividades institucionais, este eixo de trabalho abriga iniciativas voltadas exclusivamente ao enfrentamento da intolerância e promoção do diálogo inter-religioso, que dedicam-se à produção de dados, difusão de informação e conhecimento; incidência pública; participação e controle social; e estímulo ao debate de temas e questões implicados na construção de uma sociedade mais justa e fraterna.


PROJETOS E INICIATIVAS

IMG_1573Ações de Incidência Pública | KOINONIA atua nacional e internacionalmente, articulando-se com outras instituições e movimentos, a fim de produzir mudanças políticas e sociais que se traduzam na garantia e expansão dos direitos de grupos histórica e culturalmente vulneráveis.

Memórias Ecumênicas Protestantes no Brasil | Dedica-se a registrar, organizar e tornar pública a memória da participação protestante na luta pela democracia durante o período da Ditadura Civil-Militar, por meio da criação de um Acervo Digital Multimídia.

“Vários desses traficantes foram formados em lares evangélicos”, diz pesquisadora

As recentes imagens da violência intolerante contra religiosos de matriz africana escancararam um problema recorrente desde pelo menos a década passada: a ameaça de grupos armados aos cultos afro em favelas e bairros populares do Rio. Além do horror e indignação frente às cenas de agressão, os vídeos recentes também fizeram ressurgir questões a respeito de como o ódio religioso pôde ter chegado a tal ponto.

Segundo a professora do Departamento de Sociologia da UFF e autora do livro Oração de Traficante: Uma Etnografia (Ed. Garamond), Christina Vital, esse nível intolerância tem a ver com um caldo de cultura que mistura religiosidade popular, o que chama de “teologia do domínio” com o contexto de violência produzido pela relação do Estado com as periferias urbanas.

Christina conta que, nos anos 2000, apareciam sinais decisivos de uma virada evangélica nas favelas e periferias do Rio de Janeiro. Este é um fenômeno que, para muito além de apenas religioso, tem se refletido em diferentes aspectos do cotidiano das comunidades: na visão de mundo de moradores, no comércio, na estética e nos valores. Todas essas transformações – que se deram em diferentes escalas de região para região – estão ligadas ao fortalecimento de uma verdadeira cultura neopentecostal que floresce nesses lugares.

Como outros habitantes desses espaços, os traficantes também receberam esse tipo de influência, alguns deles inclusive crescendo em famílias evangélicas. Christina explica que, embora a intolerância não caracterize tais comunidades de fé, há lideranças que têm estimulado a ideia de uma batalha espiritual em curso. Nela o mal estaria situado justamente naqueles grupos mais vulneráveis socialmente: os adeptos das religiões de matriz africana. Confira a entrevista.

 

Na cabeça de pessoas já envolvidas com controle armado de territórios e possivelmente com outras atividades ou condutas criminosas não há contradição entre suas práticas e certas bases do discurso cristão (mesmo aquele vinculado ao neopentecostalismo)? Como essas contradições se acomodam?

Há uma questão para os traficantes que se auto-declaram “traficantes evangélicos”, “traficantes de Jesus”, “traficantes do senhor”, pois isso é algo delicado tanto para alguns traficantes quanto para as comunidades religiosas locais. Em parte porque, embora vários traficantes participassem da vida na igreja, vão semanalmente a cultos, participem de campanhas e escrevam diários onde falam do desejo de passar a uma vida “correta”, vários deles têm dificuldade de assumir essa identidade porque acabam não se vendo integralmente naquele exercício ético e disciplinar anunciado proposta evangélica pentecostal. Por outro lado, outros falam que são evangélicos e são de Cristo. Agora, na comunidade evangélica essa é uma questão muito séria, porque não são poucos os membros rechaçam essa proximidade, afirmando que os criminosos não são evangélicos de verdade. E estes quando assim se anunciam provocam reações de membros da comunidade religiosa que, por sua vez, insistem que aquilo é um “falso testemunho”, um testemunho ruim para os evangélicos. Um “traficante evangélico” é algo encarado como mancha moral sobre a percepção a respeito dos evangélicos em geral. Então muitas são as pessoas críticas dessa aproximação. Algumas delas tem se pronunciado em redes sociais para afirmar que esses traficantes não os representam.

De outro lado, várias das ações que partem de um ou mais chefes do tráfico parecem perder a intencionalidade primeira – que é de inspiração religiosa – se transformando em instrumentos como quaisquer outros de demonstração de força, de intimidação do outro, o que passa também pelo campo religioso. Então, para além do objetivo que nos parece mais claro – que é coibir a presença, o crescimento e, no limite, a existência de religiões de matriz africana em favelas -, esse também é um comportamento que visa exibir força e poder local e deseja agradar a uma comunidade imaginada pelos traficantes em questão. Uma comunidade que, na cabeça dos criminosos, aprovaria uma medida violenta como a que vimos nos vídeos. Afinal estamos falando de favelas com presença majoritariamente evangélica.

 

Como começa a aproximação de alguns grupos que atuam no varejo da droga em comunidades pobres do Rio de Janeiro e seus líderes com a cultura neopentecostal?

A primeira coisa pra pensar essas aproximações é ter em mente que esses traficantes integram um contexto cultural das favelas e periferias que, a partir da década de 1990 e mais acentuadamente nos anos 2000, é marcado pela presença do pentecostalismo, com sua gramática e sua estética. Vários desses traficantes foram formados em lares evangélicos, compondo uma segunda ou terceira geração pentecostal em suas famílias. Desse modo, o referencial moral e estético pentecostal já lhes era de acesso simples no núcleo familiar, assim como nos contatos cotidianos nos seus lugares de moradia. Durante o desenvolvimento do meu trabalho encontrei muita dificuldade inclusive no universo da pesquisa sociológica e antropológica de religião para desenvolver esse argumento. A literatura que relacionava o mundo do crime com o das religiões de matrizes africanas não sofria estranhamento nem por parte de pesquisadores e nem da sociedade. Mas dada a ética e o lugar moral que o cristianismo tem no Brasil e no mundo, a proximidade do crime com uma religião que se apresenta como eticamente superior – com uma disciplina que orienta uma conduta correta – a ideia de um traficante evangélico foi de difícil assimilação. Quando comecei a apresentar dados etnográficos sobre a questão não foi fácil. Várias pessoas duvidavam que poderia existir algo como um “traficante de Jesus”, pois de fato essa figura representava afinidade entre dois universos aparentemente incompatíveis.

Na década de 1990 ainda existiam muitos registros do contato de traficantes com o universo católico popular e mesmo com religiões afro-brasileiras. Eles usavam guias, faziam tatuagens com santos e entidades. Mas nos anos 2000 fui observando uma mudança tanto no uso corporal das imagens como nas pinturas em paredes das comunidades. Se na década de 1990 eram os santos que operavam por um sincretismo – se aparecia um São Jerônimo, que ao mesmo tempo poderia ser Xangô; ou São Cosme e São Damião, sempre como uma referência às religiões afro-brasileiras -, isso muda nos anos 2000, quando surgem trechos bíblicos, usualmente do antigo testamento, apresentando-se numa estética que remetia aos textos históricos antigos, em papiros.

Numa das facções, o Terceiro Comando Puro, houve a conversão de um traficante importante para a vinculação de outros a essa gramática e estética pentecostais, bem como para a difusão das pinturas que mencionei na favela de Acari, que foi meu caso etnográfico. Mas isso aconteceu em outras favelas também como no Santa Marta, na Rocinha, em comunidades da Maré e da Baixada Fluminense.

 

Você acha que hoje a atuação de igrejas com esse perfil em unidades prisionais pode de alguma forma reforçar a identificação de membros de facções com certa visão de mundo religiosa, que prega a existência de uma espécie de guerra espiritual do bem contra o mal? 

 A passagem pelo sistema prisional é absolutamente fundamental na atividade criminosa. Isso de modo geral. Porque até quem não tem facção, no sistema prisional ou em unidades sócio-educativas, é dividido por facção. Então você é empurrado pelo Estado para assumir uma identidade com o crime. E em razão disso vem surgindo uma nova facção em presídios que se apresenta a partir de uma gramática religiosa cristã. Então a passagem pelo presídio é importante para esse processo também, juntamente com o contexto cultural mais geral. No presídio também há uma ação religiosa bem significativa. Eu mesma entrevistei para meu livro um traficante que tinha se convertido na prisão e esse não é um caso isolado.

 

Diante da violência escancarada em vídeos que passaram a circular essa semana, movimentos, organizações e representantes de religiões de matriz africana têm – e com razão – exigido ações do poder público frente à intolerância. Acontece que as vítimas e espaços religiosos em questão se encontram em lugares onde tradicionalmente o Estado tem uma presença, sobretudo, policial, cuja lógica de intervenção é tão conhecida quanto ineficaz. É o momento de dialogar com líderes religiosos pentecostais que atuam nessas comunidades? É um diálogo possível?

De fato é um momento excelente para organizações e grupos que atuam no Estado produzirem diálogo com diferentes lideres pentecostais. Tem uma questão aí que é pensar a complexidade desse fenômeno, porque não há só lideranças que insuflam o ódio. Há lideres sérios que estão militando pela melhoria de vida de um número significativo de pessoas. Então é preciso que aqueles que têm uma atuação mais respeitosa em relação ao outro comecem a ganhar espaço. Os evangélicos raivosos não representam a maior parte dos evangélicos no Brasil. É preciso que se faça pesar um estigma sobre os intolerantes. Porque se religião é ligada a paz, acolhimento e amor, o que esse tipo de discurso prega é completamente diferente. As bases desse tipo de pregação não são novas. Elas têm a ver inclusive com uma teologia do domínio que prega o combate ao mal, localizado este mal justamente em grupos mais vulneráveis socialmente.

 

 Campanhas de esclarecimento são capazes de atingir aqueles que acreditam lutar contra um mal absoluto?

 Acho que além de serem capazes de atingir essas pessoas, sim, essas campanhas podem formar gerações. O mais importante é atuar de modo contundente em torno da noção de respeito e de liberdade. O que se quer não é que as pessoas gostem das mesmas coisas ou que se sintam representados pelas mesmas manifestações, mas que se compreenda os limites das possibilidades de ação religiosa. Se trata de fortalecer uma noção de respeito, onde o outro pode escolher o que quer sem ser agredido por isso. Pode ser por meio de campanhas publicitárias, campanhas do Estado, inclusive aquelas dirigidas a escolas públicas, que devem ser lugares de diversidade. Hoje quando falamos de diversidade só se pensa em sexo, mas não é só isso. É uma questão de respeitar a opinião do outro. O fundamental é insistir no respeito à diversidade e na produção de estigmas sobre os intolerantes, porque esse tipo de comportamento é insustentável num mundo globalizado de encontros culturais intensos e constantes.

TRANSCIDADANIA

Publicação revista
O Brasil é o país número um em assassinatos de transexuais e travestis, com mais de 600 mortes entre 2008 e 2014. O dado é da Transgender Europe (TGEU) – rede européia de entidades de apoio aos direitos da população transgênero – e mostra a face mais radical da discriminação e negação de direitos experimentada por travestis e transexuais também em outras dimensões da vida como as da saúde, educação, trabalho e outras.

Superar essa situação de violência requer um projeto de cidadania comprometido com a população transgênero, o que na prática quer dizer implementar políticas públicas que tenham como principal objetivo superar a discriminação em todas as áreas. Um dos primeiros passos nessa direção foi dado, em 2014, pela prefeitura de São Paulo na criação do projeto Transcidadania, que tem KOINONIA como parceira na execução.

A iniciativa visa contribuir para que a população transgênero também faça parte da experiência cidadã, oferecendo oportunidades de escolarização, profissionalização, colocação no mercado de trabalho e formação sobre seus direitos. Atualmente são 100 pessoas participando do projeto, onde recebem atendimento individual de profissionais de assistência social, psicologia e pedagogia e passam por um processo formativo com módulos que tratam de temáticas que vão desde a discussão de direito a cidade e acesso a diversidade de bens culturais até a questão dos direitos e as dinâmicas sociais que podem levar ao fortalecimento, extinção ou inexistência destes.

Logos


 

NOTÍCIAS

 

29 jan 2016“O Transcidadania educa toda a sociedade para a diversidade”, declarou Fernando Haddad na formatura do programa

29 de janeiro de 2016

O clima festivo pelo primeiro ano de realização do programa marcou a primeira formatura das/dos beneficiárias/os, na Praça das Artes, em São Paulo

12552661 cópiaEm SP, Dia da Visibilidade Trans é comemorado com programação especial

28 de janeiro de 2016

O Dia da Visibilidade Trans é um momento em que diferentes setores da sociedade se reúnem para dialogar sobre os caminhos para ampliar os direitos dessa população

125zzzCerimônia celebra um ano do Programa Transcidadania

15 de janeiro de 2016

Celebração reunirá beneficiárixs do programa e parceiros para entrega de certificados. Haverá ainda a recepção da nova turma

hormonioterapiaPelo direito à saúde integral da população trans

16 de outubro de 2015

Pela garantia de direitos da população Trans, KOINONIA participa do lançamento do serviço gratuito de hormonioterapia

unnamedNovo módulo do Transcidadania trata de mercado de trabalho e direitos

7 de outubro de 2015

Curso apresentará ferramentas de garantia de direito ao mercado de trabalho axs alunxs do programa Transcidadania

11870772Aulas de dança são oferecidas axs alunxs do Transcidadania

2 de setembro de 2015

Em parceira com o Centro de Referência da Dança de São Paulo, xs participantes terão aulas de dança contemporânea, urbana, afrobrasileira, ballet e expressão corporal

18 ago 2015Alunxs do Transcidadania visitam Memorial da Resistência em São Paulo

18 de agosto de 2015

Elxs foram ao museu dedicado à preservação das memórias da repressão e resistência política do Brasil

11070385Cursos preparatórios da UNEAfro Acolhem participantes do Transcidadania que vão prestar o ENEM

11 de agosto de 2015

Parceria entre  UNEafro e KOINONIA possibilitará o encaminhamento dxs participantes  para os cursos

DSC_0044A primeira de 100: aluna do Transcidadania conclui os estudos

7 de agosto de 2015

Amanda Marfree é a primeira a terminar o ensino médio no primeiro semestre do programa Trasncidadania

11139368Formação em Direitos Humanos debate redução da maioridade penal com participantes

4 de agosto de 2015

Foram discutidas as abordagens do tema e suas implicações

11738042-1Aula de maquiagem para caracterização dá início aos cursos de extensão cultural

3 de agosto de 2015

A oficina possibilitou a aprendizagem de técnicas que poderão ser utilizadas em espaços de trabalho

IMG-20150521-WA0013-2KOINONIA em parceria com a Secretaria Municipal de Direitos Humanos de São Paulo implementam o Programa Transcidadania

26 de maio de 2015

Inicia-se o curso de Direitos Humanos e Democracia promovido por KOINONIA em parceria com a SMDH

22627Abertura do curso de Direitos Humanos e Cidadania tem aula do prefeito Fernando Haddad

18 de maio de 2015

O curso é uma parceria entre o Programa Transcidadania e KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço

11245509_2Primeira aula do Programa Transcidadania com o prefeito Fernando Haddad, em São Paulo

15 de maio de 2015

Aula inaugural do Curso de Educação em Direitos Humanos, no Teatro Mario de Andrade, marca o início da participação de KOINONIA no programa

REVISTA INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

Edição 2 no ar www.revistaintoleranciareligiosa.com
Reunir contribuições analíticas da academia, de movimentos e organizações da sociedade civil, que possam interferir no debate público de forma qualificada, responsável e, se possível, ajudando a construir caminhos para o enfrentamento das múltiplas formas de violência baseadas na fé. Esse é o objetivo da Revista Intolerância Religiosa. Confira!

Afinal, de onde veio e do que trata o Prevenid@sG@me?

Natália Blanco

O Prevenid@s Game é um jogo de tabuleiro, pensando, idealizado e produzido pela e para a juventude. Com uma linguagem própria e voltada para educar de forma divertida sobre prevenção ao HIV, Hepatites Virais e outras IST (que antes se chamavam DST).

De onde surgiu a ideia?

Informar e formar a jovens sobre prevenção ao HIV, Hepatites Virais e Outras IST é o principal objetivo do projeto Fortalecendo Laços: Juventude Sexualidade e Direitos Humanos, uma parceria entre KOINONIA e a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo.

Tal parceria visa uma aproximação com jovens em situação de vulnerabilidade à ou infecção pelo HIV, as hepatites virais e outras IST, especificamente na cidade de São Paulo. E pensando no futuro, a ideia é levar essa aproximação e linguagem para outras regiões do país.

Mas como atingir essa população que está cada vez mais antenada, independente e exigente? A resposta é simples, falar a mesma “língua” que elas e eles. E isto é uma demanda que a própria juventude expressa.

As típicas campanhas de “use camisinha” que são veiculadas no carnaval já estão mais do que batidas. Os setores do poder público e muitas vezes organizações sociais têm dificuldade de interagir e dialogar com a juventude que, mesmo estando mais antenada, ainda tem pouco conhecimento sobre os métodos de prevenção.

Dados divulgados pela UNAIDS (Organização das Nações Unidas) no relatório de 2015 revelam que apesar do número de infecções pelo HIV na população geral estar em queda, existe uma faixa preocupante. Um crescimento de 53% no número de casos vem atingindo homens de 15 a 19 anos.

Com isso mente, o Fortalecendo Laços viu uma oportunidade de conseguir chegar à esse público, com a ideia de criar um jogo que falasse a língua do jovem e ainda fosse divertido. Nasceu assim, o Prevenid@sG@me.

E como se joga?

O jogo enfoca três aspectos: interação entre jogadores/as, compartilhamento de vivências pessoais e o aprendizado sobre métodos de prevenção e sobre as infecções.

Como qualquer jogo de tabuleiro, os jogadores/as são posicionados/as nas quatro casas, uma em cada extremidade. O dado vai ditar o número de passos a avançar.

As casas representam cartas que podem conter perguntas ou consequências. São elas:

– Cartas de sorte ou azar:
“Foi para a balada sem camisinha? Volte duas casas!”

– Cartas com desafios se o jogador parar na casa inicial de outro adversário:
“Parou na casa do adversário? Dê um abraço no dono da casa!”

– Cartas para o jogador pagar uma “prenda”:
“Prenda: Dance a Macarena!”

– Cartas com perguntas técnicas para o jogador responder a alternativa correta:
“As lesões de HPV têm cura?

  1. Não, sempre surgirão outras lesões;
  2. Sim, o organismo cura sozinho;
  3. Sim, desde que o tratamento for feito de forma correta.”

– Cartas com perguntas de situação para o jogador responder qual a melhor opção naquele contexto:
“Ao compartilhar batons, lápis de olho, alicate de unha, etc. É possível transmitir HIV?

  1. Existe a possibilidade de transmissão do HIV e da Hepatite C pelo alicate de uma, mas não existe risco de transmissão de alguma IST por batons e lápis de olho;
  2. O risco é o mesmo, tanto para transmissão do HIV quando das IST’s;
  3. Não existe risco algum de transmissão do HIV e nem das IST’s.”

Ganha o jogo quem completar uma volta no tabuleiro, adquirindo assim conhecimentos sobre práticas de prevenção ao HIV, hepatites virais e outras IST!

 

Sobre o projeto
“Fortalecendo Laços: Juventude, Sexualidade e Direitos Humanos – Uma ação concreta com populações jovens vulneráveis e HIV/AIDS na cidade de São Paulo” é realizado por KOINONIA em parceria com a Secretária Municipal de Saúde de São Paulo. Assinado pelo termo de convênio Nº026/2015 – SMS – G, o projeto tem por objetivo formar 50 jovens com idade entre 15 e 30 anos, preferencialmente LGBT, frequentadores do centro de São Paulo e transforma-los em agentes de defesa de direitos sexuais e reprodutivos, de epidemias de DST/HIV/AIDS, bem como de hepatites virais.

Histórias de vida entre a dor e a esperança

Por: Cláudio Márcio, Reverendo da Igreja Presbiteriana Unida de Muritiba-BA

“Jovens, à época, empolgados com as possibilidades abertas para construção de um novo futuro para o país, e, ao mesmo tempo, convencidos do retrocesso político, econômico e cultural sinalizado pela implantação de um regime autoritário, criaram as suas diferentes formas de resistência ao arbítrio      e ao atropelo dos direitos inalienáveis da pessoa humana. Pagaram um preço inaudito por sua ousadia e destemor. Foram vítimas da tortura, da prisão e do exílio… e muitos tiveram suas vidas ceifadas nos porões da violência institucionalizadas” (DIAS, 2014, p.13).

O documentário Muros e Pontes: memórias Protestantes na ditadura ajuda a refletir sobre a temática do Estado Laico e a função religiosa, pois, propõe desvendar memórias como uma espécie de recontar narrativas experimentadas por jovens protestantes ecumênicos (homens e mulheres) durante o golpe de 1964. Ora, as memórias são modos de articulações entre experiências vividas no fluxo do tempo, portanto, passadas e presentes, ou seja, contar a memória é reconstruir um lugar no mundo produzindo pertencimento político identitário, pois, a memória é produto e produtora de mundo concomitantemente.

Partindo deste pressuposto da fabricação de identidades, quem são esses rostos e essas vozes apresentados no documentário? A função de entrevistador do documentário é do pastor emérito da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e professor universitário, Zwinglio M. Dias. Na realidade, ele ocupa um lugar dúbio, uma vez que, neste processo de múltiplas identidades, ele ora realiza entrevistas, ora oferece o seu depoimento como alguém que também carrega as marcas deste contexto arbitrário militar brasileiro. O documentário oferece histórias de vida com um misto de dor e esperança. Sinaliza ainda um contexto de efervescência política onde as instituições estavam sendo questionadas por seus modelos hierárquicos, muitos líderes religiosos não estavam preparados para serem interrogados e, ao mesmo tempo, de fazer uma ponte entre a fé cristã e as inúmeras demandas sociais do Brasil. Evidentemente que alguns jovens cristãos e ecumênicos estavam dispostos a construir essa suposta ponte.

Assim sendo, refletindo o protestantismo brasileiro é possível problematizar: por que essas experiências de fé, luta, reflexão crítica e engajamento político foram (são) negadas em muitas comunidades de fé? Falta de informação das lideranças? Trata-se de líderes mal intencionados? Por que negar a trajetória e influência de figuras como: Richard Shaull, Waldo César, Jaime Wright, Paulo Stuart Wright, João Dias de Araújo, Anivaldo Padilha e Rubem Alves?

Uma das formas de tentar responder a esses questionamentos é olhar para a parceria feita entre o Projeto Marcas da Memória da Comissão de Anistia e Koinonia Presença Ecumênica e Serviço, pois, ao desvendar e ou recontar um momento histórico do Brasil e de alguns jovens ecumênicos, muitas narrativas são potencializadas gerando imagens e sons desafiadores para outras gerações. Dito de outra forma, esses depoimentos apresentam-se como contraponto de uma suposta história oficial, uma vez que, esses homens e mulheres trazem no corpo e na memória as marcas de um momento sombrio na política brasileira.

Com efeito, é urgente romper com os paradigmas que não dialogam com a diversidade cultural brasileira. É preciso compreender que existem protestantismos com possibilidades múltiplas de vivência da fé. A Igreja Presbiteriana Unida do Brasil (IPU) é um exemplo de uma forma de ser em que a dimensão da fé pode-deve ser efetivada em sindicatos, partidos políticos, ONG’s, etc, logo, criou-se a Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) e a Comissão Ecumênica dos Direitos da Terra (CEDITER).

Há um fragmento narrado por Zwinglio M. Dias no documentário em que ele e um grupo eram acusados de “ecumenistas”, ou seja, uma mistura de ecumênicos com comunistas. Desta forma, esses jovens eram vistos como “perigosos” para o ordenamento eclesiástico onde estavam inseridos, assim como, para a ordem política vigente no país. Bem, tenho lido Richard Shaull e Frei Betto, assim, penso ser necessário fazer uma distinção entre uma “bancada evangélica” com características teocráticas e que em nada garantem os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras em nossa “pátria amada”, de uma fé que é práxis libertadora, isto é, uma participação política engajada por justiça social e garantia dos direitos de grupos sociais.

De fato, o documentário traz a memória entre os tantos nomes o do Rev. João Dias de Araújo. De quem se trata? Um líder religioso com formação em teologia, filosofia e direito. Um dos fundadores da IPU. Ajudou a criar o SIM (Serviço de Integração do Migrante), em Feira de Santana-BA. Autor de uma obra clássica para quem estuda o fenômeno religioso protestante brasileiro, a saber: Inquisição sem fogueiras, ou seja, trata-se de um líder religioso extremamente articulado com o solo brasileiro e optou (assim como Jesus de Nazaré), em caminhar com e pelos “pobres”.

Evidentemente que o processo de rememorização é sintético, pois, o reverendo João Dias foi em vida muito mais do que o dito acima. Logo, como e ou por que ocultar uma trajetória tão relevante e encorajadora? A quais grupos e ou sujeitos sociais interessam o apagamento ou a omissão dessa e tantas outras memórias? Comungo então que as lutas outrora travadas encontram-se atuais, sobretudo porque ainda vivemos com as velhas inquietações abordadas nos fragmentos do que se tornou o Hino oficial da IPU que diz: “Que estou fazendo se sou cristão, Se Cristo deu-me o seu perdão? Há muitos pobres sem lar, sem pão. Há muitas vidas sem salvação. Mas Cristo veio pra nos remir, O homem todo sem dividir: Não só a alma do mal salvar, Também o corpo ressuscitar” (OLIVEIRA, 2014, p. 80).

Essa era a característica das vidas acionadas no documentário: por uma teologia pública crítica e libertadora. Assim, é necessário potencializar essas vozes para que novas práticas possam brotar no protestantismo brasileiro. Lembremos de Rubem Alves quando sinaliza: “Mas os mártires têm aparecido: Gandhi, Martin Luther King, Oscar Romero e muitos outros. Líderes religiosos são intimados, perseguidos, ameaçados, expulsos, presos… Ópio do povo? Pode ser, mas não aqui. Em meio a mártires e profetas, Deus é o protesto e o poder dos oprimidos” (ALVES, 2003, p. 111).

 

REFERÊNCIAS

ALVES, Rubem. O que é religião. São Paulo: Edições Loyola, 2003.

DIAS, Zwinglio M. (org) Memórias Ecumênicas Protestantes – Os protestantes e a Ditadura: Memória e Resistência. Rio de Janeiro: KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, 2014.

OLIVEIRA, Nilton, Emmerick. A Militância Política de um Presbiteriano “Comunista”… In: DIAS, Zwinglio M. (org) Memórias Ecumênicas Protestantes – Os protestantes e a Ditadura: Memória e Resistência. Rio de Janeiro: KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, 2014.