MISSÃO ECUMÊNICA PAU D´ARCO: DENÚNCIAS E ANÚNCIOS SOBRE CHACINA E DESAPROPRIAÇÕES DE TERRA

 

TEXTO: Comunicadores Feact Brasil

A Missão Ecumênica Pau d´Arco realizou, entre os dias 08 e 10 de novembro, incursões ao Sudeste paraense, em solidariedade aos massacres e desapropriações de terra que vêm ganhando força na região devido aos conflitos fundiários. A ação contou com realização do Fórum Ecumênico Brasil (FeBrasil), Processo de Articulação e Diálogo Internacional (PAD), organização do Centro de Estudos Bíblicos (CEBI), Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), Comissão Pastoral da Terra (CPT), Comitê Brasileiro de Defensoras e Defensores de Direitos Humanos, Diocese de Marabá, Conceição do Araguaia e Xinguara, e apoio da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) e das agências internacionais Misereor, Brot für die Welt, Christian Aid, Heks Eper e Fundação Ford.

O Brasil é campeão de assassinatos de ativistas e defensores do meio ambiente no mundo, de acordo com a ONG Global Witness. Segundo dados da CPT, de 2010 a 2015 ocorreram 210 mortes e 300 tentativas de homicídio devido a conflitos de terra. Só em 2016 foram registrados 25 casos de assassinatos e até agosto de 2017 já foram mortos 59 defensores e defensoras de direitos humanos que atuam na luta pela terra. Hoje uma grande parcela (18 assassinatos) foi registrada no Estado do Pará.

Tendo em vista essa realidade, os objetivos da Missão Ecumênica são prestar solidariedade às famílias e comunidades atingidas pela violência no campo; comprometer as igrejas e pastorais para se posicionarem contra a violência no campo; incidir junto aos órgãos do Poder Executivo, Legislativo e Judiciário; e ampliar a visibilidade dos acontecimentos locais para o mundo.

Visita a Pau d´Arco

Em 24 de maio de 2017, dez trabalhadores rurais (uma mulher e nove homens) foram brutalmente assassinados no município de Pau d´Arco (Sudeste paraense), na fazenda Santa Lúcia. A chacina de Pau d´Arco é considerada o pior massacre por conflito agrário desde a chacina de Eldorado dos Carajás em 1996.

Um dos sobreviventes, que presenciou de perto o assassinato de seus companheiros e companheira pela força policial, relembra os momentos da madrugada de terror daquele dia 24. “Quando deu umas 18h [do dia 23], vimos a polícia chegando. Mas a polícia de norma sempre vinha pra ver se estava tudo bem, eles nunca faziam isso que eles fizeram. Então a gente não ficou com receio de eles virem pra matar. Ninguém imaginava isso. Daí, nós dormimos. Quando deu umas 5h, 6h, aí nós ouvimos de novo outro carro chegando, batendo porta. Os meninos foram lá e, quando viram, eles já estavam descendo o caminho pra represa e uns estavam de capuz. Aí já assustou a forma que eles estavam vindo, tudo metralhado, quebrando tudo, as panelas. Tinham uns lá na turma nossa que assustou e correram com medo”, relata, em detalhes.

E foi neste momento, segundo a fonte (cuja identidade não será revelada por motivo de segurança), que a polícia percebeu o local onde o grupo estava. “Aí começou a chover, muita chuva e relâmpago. Dava pra ouvir eles chegando. Eu escutei: “não corre não, se não vai morrer, bando de bandido. Foram falando e atirando, não deu chance nenhuma. Ali, como a gente estava, dava pra prender todo mundo, sem ter matado e batido em ninguém. Foi um susto tão grande, que o pessoal se embolou por cima da lona, um caindo por cima do outro. Quando eu consegui levantar pra correr, levei um tiro nas costas e caí. Eu olhei, tinha um matinho, uma moita, eu consegui ir pra lá. Foi quando eu ouvi a polícia: “não corre não, se não morre. Mas era com alguém deles, eu achei que era comigo, aí eu parei, fiquei imóvel ali”.

Escondido atrás de babaçus, a uns 15 metros do local dos assassinatos, a fonte ouviu o espancamento e morte violenta de cada um do grupo de dez pessoas. “Se eu olhasse pra trás, dava pra eu ver, mas eu estava em choque, só ouvindo eles pisando, massacrando, batendo nos meninos, muita pancada e tiro e humilhando. E a dona Jane [Jane Júlia de Oliveira, a única mulher entre os assassinados], ‘não, não faz isso com os meninos, não’. E eles, “era tu que nós queria mesmo’ [ela era liderança do acampamento]. Eles atiraram muitas vezes na dona Jane [que também teve a perna quebrada]. Eu escutei os meninos chorando, dizendo ‘por favor, a gente não vai correr não, a gente está quieto senhor’. E aí começaram a atirar. Atiraram muito. Mas foi coisa de muito tiro, fiquei sufocado com aquele cheiro de pólvora. Quando eu vi que não era comigo o ‘não corre’, foi quando eu consegui rastejar pra uma moita. Fiquei escondido no capim, esperando, a polícia rodeando, atirando. Eles riam, riam”, destaca, desolado.

Segundo o entrevistado, a polícia chegou ao local do massacre por volta de 5h horas da manhã e só deixou a região seis horas depois, às 11h do dia 24 de maio.

Giodete Oliveira Santos, parente de sete dos trabalhadores e trabalhadora assassinados, era amiga próxima de Jane. “Não foi só uma mulher que eles mataram. Mataram uma mãe, uma filha, uma amiga. Nossa, pra mim ela era tudo. Eles [foram dois sobreviventes] falam que eles pediram muito pra não fazer aquilo. Porque eles se entregaram, sabe? E mesmo assim eles mataram. Eu ainda vivo porque eu estou nessa luta por eles. Mas eu não falo nem vida, porque a gente para. A gente não vive não”.

Durante a visita à comunidade de Pau d´Arco, Thiago Valentim, que integra a coordenação executiva da CPT, informou aos trabalhadores e trabalhadoras rurais presentes que, além de prestar solidariedade e conhecer de perto a realidade da região, a Missão levará o compromisso de convocar forças para pressionar o Governo Federal, especificamente o Incra [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária], para que dê celeridade na garantia de terra para a comunidade.

Ato ecumênico

“Jane Júlia de Oliveira, presente!

Oseir Rodrigues da Silva, presente!

Hércules Santos de Oliveira, presente!

Regivaldo Pereira da Silva, presente!

Ronaldo Pereira de Sousa, presente!

Bruno Henrique Pereira Gomes, presente!

Antônio Pereira Milhomen, presente!

Nelson Souza Milhomem, presente!

Weldson Pereira Milhomem, presente!

Weclebson Pereira Milhomem, presente!”

Aos brados, em homenagem aos dez trabalhadores e trabalhadoras massacrados em Pau d´Arco, teve início o Ato Ecumênico realizado pela Missão, no município de Marabá. A celebração ecumênica contou com a presença do bispo de Conceição do Araguaia, Dom Dominique Marie Jean Denis You.

Familiares dos assassinados estiveram presentes na celebração. Régis Marcos perdeu sete pessoas da família – dos dez assassinados. “O que ficou ainda é a dor, o desespero, é o sentimento de revolta, de injustiça, porque foram dez vidas, dez seres humanos, e só da nossa família foram sete pessoas. Eu perdi meu irmão, perdi meus dois primos, meus dois tios e a minha tia. A minha tia aqui presente perdeu dois filhos que cuidavam dela e hoje em dia, nós, os mais próximos cuidamos dela, os sobrinhos, as sobrinhas, e alguns irmãos que ainda ficaram, porque foram dois irmãos dela assassinados”, detalha, revelando a completa desestruturação familiar.

“Eles tiraram tudo da gente. Tudo. Não só a vida dos nossos familiares, mas a dignidade da família. A gente não pode ter o direito de ter um velório digno, ninguém pode se despedir de seus familiares, ninguém viu eles pela última vez porque o Estado fez a covardia de assassiná-los e nem os corpos entregaram pra gente. E quando vieram entregar os corpos pra nós, já estavam todos em estado de putrefação. A gente não teve o direito de dar o último adeus”, denuncia.

Régis Marcos ressalta que o que eles desejam é justiça. “A gente quer um grito de liberdade, de todos terem o direito a um pedaço de terra, de plantar, de cultivar. Porque de quem é a terra? A terra é de quem quer trabalhar. Aí se resume a meio grupo de latifundiários que se apodera de tudo e nós voltamos a ser aqueles escravos de tantos anos atrás. Escravidão acabou? Onde que acabou?”, relativiza.

A necessidade de que as igrejas se posicionem de maneira firme e constante é apontada pelo Reverendo Luiz Carlos Gabas, integrante da Missão. “É muito confortável para a Igreja, quando nós só nos dedicamos à oração, ao louvor, às idas aos templos. E nós precisamos como Jesus estar no meio do povo, atentos às necessidades do povo, preocupados com a sorte dos pobres. É uma exigência evangélica. É muito confortável a gente pensar em uma igreja que prepara as pessoas para a salvação depois da morte. Igreja tem que se preocupar com a vida das pessoas. O céu tem que começar aqui. E céu é o que? É terra, é comida, é casa, é saúde, educação. Então como lideranças religiosas, que a gente se comprometa a não nos calarmos diante de nenhuma forma de injustiça. Eu vou repetir o que é muito presente no Movimento Sem Terra. Diante da morte, diante da violência, nem um minuto de silêncio”, conclama os presentes.

Além das organizações realizadoras e que organizaram a missão, estiveram presentes durante toda a missão representações da Igreja Presbiteriana Independente, Igreja Presbiteriana Unida, Aliança de Batistas do Brasil, Paróquia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana, Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, familiares dos trabalhadores e trabalhadora assassinados, Conselho Indigenista Missionário, Movimento de Trabalhadores Sem Terra. Prestaram apoio à missão a Pastoral da Juventude, irmãs leigas, comunidades eclesiais de base, movimento estudantil, Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura regional, Movimento dos Atingidos por Barragens, estudantes de direito a terra e docentes da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará.

Reunião no Ministério Público

Uma reunião no Ministério Público do Estado do Pará foi realizada, como forma de incidência junto ao poder público local e para acompanhar o andamento das investigações do massacre de Pau d´arco. No momento, os 17 policiais envolvidos na chacina estão presos.

Rafael Soares, diretor executivo de Koinonia, pontua que diante do que foi testemunhado pela missão, é compromisso do FeBrasil levar a solidariedade, no sentido de evitar ao máximo as reintegrações de posse. ‘Mais de mil famílias estão ameaçadas de despejo ate o Natal, no período do advento’De acordo com os promotores criminais destacados para o caso, Alfredo Martins de Amorim e Leonardo Jorge Lima Caldas, é preciso estar atento e fazer pressão durante o inquérito e julgamento em júri popular – este último ainda sem data prevista para acontecer. A estratégia da defesa dos policiais será desqualificar as vítimas para justificar a conduta dos policiais. “A justificativa vai ser essa, que o que a polícia fez ali foi uma faxina social, uma benesse para a sociedade”, explica o promotor Leonardo Caldas.

Os promotores ainda afirmam que um dos fatores que levaram à prisão dos executores foi o fato da investigação ter sido realizada pela Polícia Federal, com equipe especializada trazida de fora da região. “Com o fechamento dessa etapa, a equipe acabou saindo. O inquérito continua, mas nossa luta é que essa equipe volte para essa segunda instância. Até porque pra não ficar naquele clichê, os executores foram identificados, então cumprimos nosso papel, quando a gente sabe, pelo que ficou apurado, que tem algo a mais nisso aí. Se existem indícios de que houve um patrocínio, é dever do Ministério Público ir atrás”, assegura Caldas.

De acordo com dados da Anistia Internacional, um levantamento no Pará mostrou que trinta dos quarenta municípios do sul e sudeste do Estado têm taxa de 100% de impunidade em relação aos assassinatos de trabalhadores e trabalhadoras rurais nos últimos 43 anos.

Acampamento Hugo Chávez

Aproveitando a presença na região, a Missão Ecumênica Pau d´Arco não poderia deixar de conhecer de perto a problemática de desapropriações de terra no Sul e Sudeste do Pará. Um total de 1200 famílias serão despejadas de suas casas só neste mês de dezembro. No acampamento Hugo Chávez, a 40 km do município de Marabá, serão 300 famílias expulsas de suas residências.

A Fazenda Santa Tereza [onde se estabeleceu, há três anos, o Acampamento Hugo Chavéz] é, supostamente, de propriedade de Rafael Saldanha. Supostamente porque há indícios de que a fazenda localiza-se em terra pública e tenha sido grilada pela família Saldanha. “Então, não estamos em área particular, estamos em terra pública, área do Estado, área que deveria ser destinada à reforma agrária para assentar essas famílias que não tem terra e que não tem condições de comprar essa terra”, esclarece a pedagoga e acampada Polliane Soares.

Em negociações entre o Incra e a família Saldanha, o órgão público se dispôs a comprar a área por 8 milhões, mas o fazendeiro Rafael Saldanha não aceitou. A partir desse momento foi arquivado o processo de negociação da área e foi pedida a reintegração de posse, protocolada em outubro do ano passado. Agora a reintegração está marcada para daqui um mês, em 13 de dezembro de 2017.

A acampada Polliane Soares conta que a convivência com os proprietários da fazenda nunca foi pacífica. “Em 2014, quando da ocupação, nós tivemos vários períodos de ataques constantes da pistolagem da fazenda. Tivemos nossas roças queimadas, incendiadas. Agora, em 2017, a gente teve um episódio em julho, quando a mando do fazendeiro os pistoleiros atearam fogo nas nossas roças, passaram atirando na frente do acampamento e atearam fogo ao redor dele, com o intuito de queimar as famílias que vivem aqui. Nós já tivemos episódios de perder nossos barracos, de pistoleiros entrarem à noite no acampamento e atearem fogo no barraco com as famílias dentro, e aí a pessoa acordou no meio da noite com o barraco pegando fogo, saiu correndo, deixando tudo pra trás, documentos, todos os pertences”, rememora.

Polliane denuncia também que o inclusive o direito de ir e vir dos acampados e acampadas têm sido impedido, já que os pistoleiros têm abordado os trabalhadores e trabalhadoras na estrada que dá acesso à cidade de Marabá e intimidado os assentados da região a não darem trabalho para os trabalhadores e trabalhadoras do Hugo Chávez.

“Como professora, eu me sinto muito triste, angustiada. O Hugo Chávez é nossa moradia, de onde tiramos nosso sustento, da nossa horta mandala, nossas roças. Enquanto acampada eu pretendo lutar até o último momento. Enquanto educadora, eu acredito que não é porque a gente é acampado, que a gente não tem direito à dignidade para nossas crianças. Nós não trabalhamos só com educação primária, nós trabalhamos com a EJA também. Nos temos à noite cerca de 70 alunos na EJA”, descreve a professora Maria do Socorro. Entre crianças, jovens e adultos, a escola atende 150 pessoas.

Em reunião com as famílias do Hugo Chávez, Sônia Mota, diretora executiva da CESE, se lembrou de quando a CESE esteve presente na região, em 1996, quando do massacre de Eldorado dos Carajás. “Desde lá caminhamos em Missão Ecumênica, porque acreditamos que as igrejas são conclamadas, sim, a estar do lado do povo e do povo pobre, porque o Cristo que acreditamos nunca deixou de lado o povo pobre, aliás, era a sua plataforma de missão”, afirma.

E prestou solidariedade e esperança na luta pela terra. “O povo do acampamento Hugo Chávez não está só. Nós acreditamos, sim, que tem terra e tem terra pra todo mundo. E terra é pra quem planta, terra não é pra ficar parada para os grandes latifundiários ganharem dinheiro com ela. O sangue das pessoas que tem caído nessa terra tem que regar a nossa esperança e a nossa luta, porque a luta de vocês é a nossa luta também. Porque se o campo não planta, a cidade não come”, brada Sônia Mota.

Fazendo uma referência bíblica, a diretora executiva da CESE se remete ao momento em o povo do Egito precisou fugir da condição de escravos no Egito e se deparou com o mar. “Quando chegaram diante do mar e o povo ficou com medo, o que foi que eles ouviram? ‘Diga ao povo que marchem. E é em marcha que o MST tem feito a reforma agraria nesse país. É em marcha que a gente caminha. É em marcha que essa Missão Ecumênica vem e está disposta a continuar marchando com vocês e tentando fazer aquilo que a gente pode, amplificar essas vozes que lutam por justiça”.

A pedagoga e acampada Polliane pede que as pessoas que entrarem em contato com essa realidade, se sensibilizem e somem forças para que o despejo não aconteça. “As famílias que aqui estão não têm para onde ir, não têm casa, não têm trabalho na cidade. As crianças que aqui estão não conseguirão cumprir os 200 dias letivos, que é garantido na Constituição. As famílias vão perder a produção. Eu tenho filha, o sofrimento que eu tenho é de outras famílias aqui. O desespero de não saber pra onde ir. O desespero de saber que vai ser jogado fora”, desespera-se.

E finaliza: “Nós vamos ter um total de 1200 famílias despejadas de suas casas agora em dezembro. 591 crianças fora da escola. Em torno de cem toneladas de alimento destruídas. Estamos contando com a solidariedade de muita gente nesse momento de dificuldade. Que as pessoas possam pensar, quando estivessem nas suas casas, numa noite chuvosa, quentinhas, com um prato de comida para os filhos, onde estarão as outras pessoas? Que não esqueçam que vão ter 1200 famílias do sul e sudeste do Pará que não vão ter essa condição”.

Ameaças e violência contra líderes quilombolas se espalham pelo Brasil

O ano de 2017 tem sido delicado para causa quilombola no Brasil. Ameaçados diretamente em seus direitos territoriais por uma ação que na prática suspende os processos de demarcação e titulação das áreas que já ocupam, eles têm ainda que enfrentar a violência. Só este ano foram pelo menos 14 as vítimas fatais, de acordo com levantamento da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq). E dos  desfechos trágicos, 70% se deram na Bahia.

Contudo, os casos podem se espalhar pelo Brasil, dada a situação de vulnerabilidade em que se encontram as comunidades e, em especial, suas lideranças. Na última semana, quem viveu momentos de terror foi a líder quilombola Rejane Oliveira, a Jane da comunidade Maria Joaquina, RJ. Ela conta que, após uma visita do Incra – órgão responsável pelo processo de demarcação dos territórios -,  recebeu ameaças de vizinhos. Segundo Jane, proprietários de terras locais imaginaram que o trâmite de titulação significava que eles poderiam perder os direitos sobre as áreas já ocupadas.

“O  Incra vem e nós temos que mostrar as delimitações, a localização das casas dos quilombolas, mas a liderança acaba ficando vulnerável nesse processo. Ficamos expostos à violência, porque se você for ligar para a polícia você não consegue falar e a delegacia mais próxima é a 1h20 daqui, em Cabo Frio. Eu acho que isso deveria ser levado em conta. As pessoas que moram no território precisam ser informadas de como é o processo. Quilombolas não querem tomar terras de ninguém”, explica.

Jane informou ainda que, após as ameaças, entrou em contato com a Fundação Cultural Palmares, que a orientou a denunciá-las, mantendo a entidade informada. KOINONIA também segue acompanhado o caso, para que ele não se desdobre em outro de violência letal contra os remanescentes de quilombo.

STF adia julgamento da constitucionalidade de decreto que regula o processo de titulação de terras quilombolas

Nesta quarta (18), o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu o julgamento que definiria se o decreto 4.887/2003 é ou não constitucional. Na prática, a decisão vai viabilizar ou não condições legais mínimas para o reconhecimento oficial de comunidades remanescentes de quilombo. O processo é resultado de uma ação do Democratas (DEM) que vem questionando o decreto desde 2004. Desta vez, o motivo do adiamento foi uma cirurgia de emergência do ministro Dias Tófoli, que havia pedido vistas do processo e retomaria o julgamento. A presidente do Supremo ministra Carmem Lúcia só remarcará uma nova data após o retorno de Tófoli.

Em depoimento gravado por NINJA, Ronaldo dos Santos, coordenador executivo Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), afirmou que embora o adiamento prejudique o fôlego da mobilização dos quilombolas, que foram hoje à Brasília (DF), ele dá mais tempo para que o movimento tente disputar a opinião pública.

“Não sabemos quando será votado novamente, mas tem algo que nós podemos fazer que é fazer a luta se manter de pé. Sabemos que esses adiamentos desarticulam, mas temos que chegar de novo, porque o irmão e a irmã vai tentar chegar também. Temos que manter a nossa vontade de estar aqui ocupando a Praça dos Três Poderes, ocupando o Supremo Tribunal Federal. Essa é a quinta vez que o decreto entra em pauta, apesar de só ter entrado em votação por duas. Vamos manter a energia e a vontade de nos defender. A gente não depende da saúde do Tófoli pra falar dos nossos direitos”, disse.

Ronaldo lembrou a campanha o Brasil Quilombola, que tem uma petição com quase 100 mil assinaturas a favor da constitucionalidade do 4.887. O coordenador da CONAQ tocou também na necessidade de que tanto os quilombolas quanto as pessoas que simpatizam com a causa sigam na mobilização, tomando o adiamento como uma chance de influenciar positivamente a opinião pública.

Para a assessora de KOINONIA, Ana Gualberto, também há possibilidades de o movimento quilombola tirar vantagem do adiamento. “Todo o racismo tem concorrido para não legitimação dos direitos quilombolas. No cenário político onde o Supremo tem dado tantas vitórias para forças mais conservadoras, esse adiamento é realmente positivo. Infelizmente, no Brasil, há pouca sensibilidade da opinião pública quanto a questão quilombola. Mas pode ser o momento de tentar ganhar as pessoas pra essa questão importante para a própria identidade quilombola”, observa.

O decreto impacta diretamente mais de 1.500 comunidades, não só em seu acesso terra, mas na afirmação de toda uma história de espoliação e injustiça cuja reparação se faz necessária a um país que se quer democrático. Por isso é preciso seguir na mobilização, seja nas redes, nas ruas, no boca a boca e na pressão sobre o STF.

Agroecologia, inclusão produtiva e feminismo

A VI Feira Agroecológica de Mulheres do Baixo Sul movimentou Camamu (BA), nesta sexta (6). Desde 2012 – quando surgiu – tematizando a dobradinha inclusão produtiva feminina e enfrentamento da violência contra a mulher, o evento desta vez debateu a desigualdade no trabalho doméstico.

Esta edição contou com a presença de cerca de 250 trabalhadoras rurais da região que vieram à cidade com recursos próprios. Com 14 municípios, em que aproximadamente 50% da população vive em áreas rurais, o Baixo Sul da Bahia apresenta um histórico problema de violência física, psicológica e simbólica contra as mulheres, agravado pela pouca adaptação das políticas e serviços públicos à realidade local. Muitas das comunidades estão longe dos centros administrativos das cidades, o que dificulta o acesso das mulheres à rede de efetivação de direitos básicos, principalmente em casos de violência.

Além da discussão, exposição e comércio da produção das mulheres, houve uma série de apresentações culturais que ressaltaram a importância do patrimônio material e imaterial das comunidades negra rurais, especialmente daquelas remanescentes de quilombos.

Entre um debate e outro, foi lançada a Campanha Nacional Pela Divisão Justa do Trabalho Doméstico, cujo objetivo é pautar relações de trabalho/exploração, gênero e violência contra a mulher.

No fim, depois de uma oficina de confecção de cartazes produzidos a partir de narrativas a respeito da violência contra a mulher na região, as participantes caminharam até as portas do fórum local onde afixaram suas mensagens como forma simbólica de cobrar da Justiça o devido enfrentamento ao problema da violência de gênero na região.

Por conta de KOINONIA ficou a orientação jurídica, que se mostrou uma demanda reprimida da população local e a leitura do manifesto da Rede de Mulheres Negras, que tem promovido a campanha “Parem de Nos Matar”.

Fortalecendo Laços

“Fortalecendo Laços: Juventude, Sexualidade e Direitos Humanos – Uma ação concreta com populações jovens vulneráveis e HIV/AIDS na cidade de São Paulo” é realizado por KOINONIA em parceria com a Secretária Municipal de Saúde de São Paulo. Assinado pelo termo de convênio Nº026/2015 – SMS – G, o projeto tem por objetivo formar 50 jovens com idade entre 15 e 30 anos, preferencialmente LGBT, frequentadores do centro de São Paulo e transforma-los em agentes de defesa de direitos sexuais e reprodutivos, de epidemias de IST/HIV/AIDS, bem como de hepatites virais.

 

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O “nós por nós” na prevenção do HIV e outras IST

 

Natália Blanco 

Entre os dias 23 e 24, mais de 70 jovens de diferentes regiões do Brasil participaram do Workshop Juventude, Sexualidade e Direitos Humanos em HIV, Hepatites Virais e outras IST, uma iniciativa do projeto Fortalecendo Laços. Como outros nessa temática, o encontro reuniu especialistas, ativistas e pessoas vivendo com HIV. Mas desta vez o que houve de especial foi o fato de a maioria dos participantes – o que incluiu, é claro, os provocadores das discussões – ter sido de jovens, com toda a pluralidade que o termo abriga. Eles não só deram o tom das conversas durante os dois dias, como foram os grandes responsáveis pelo evento desde a concepção.

Foram nove debates transmitidos ao vivo, com ampla participação dos convidados e mais outras dinâmicas de interação, partindo de temas inter-relacionados como as representações da juventude nas políticas e serviços públicos; história do HIV; gerenciamento de risco e prevenção combinada; a importância da participação jovem no controle social do SUS; sexualidades e identidades de gênero; saúde mental na juventude; comunicação; e a experiência dos jovens que vivem com HIV.

No debate “Vivendo com HIV e ponto”, as falas que abriram a troca de ideias foram de Pierre Freitaz, 30, e Caliane Araujo, 21. Mais que tratar de como lidam com a sorologia, eles abordaram uma série de efeitos da discriminação, traço comum à experiência dos jovens que vivem com a infecção.

“Eu soube o que era HIV na escola, com um colega gritando ‘você tem Aids’. Se a mente tivesse esse poder, eu teria me teletransportado daquele lugar. A partir daquele momento, a escola virou um lugar muito punk pra mim”, conta Caliane, que começou a virar o jogo contra o preconceito quando passou a frequentar um grupo de jovens soropositivos na Fundação Poder Jovem. “Foi como se eu fosse de marte e de repente conhecesse outros marcianos”, brincou. “O que mata não é a doença, mas o preconceito, a não aceitação imposta a nós”, lembrou em seguida.

Pierre descobriu sua sorologia entre os 14 e os 15 anos de idade. Ele recordou ter recebido a notícia de uma profissional de saúde de forma que definiu como “fria”. “Recebi o diagnóstico em Pinheiros e andei até Taboão da Serra sem saber o que fazer”, relatou. O trecho percorrido caminhando pode ter de 13km a 15km aproximadamente. A história de Pierre traz o problema da falta de preparo nos serviços públicos de saúde para o acolhimento de pessoas recém diagnosticadas e, sobretudo, os jovens.

“O serviço de saúde ainda tem uma dificuldade de lidar com as pessoas que descobrem ou que vivem com o HIV. Isso até por conta da rotina do dia a dia em que muitos passam por essas situações naquele ambiente. Os técnicos acabam não vendo a pessoa que está ali na frente deles como uma pessoa, com sentimentos, questões e que precisa de um acolhimento especial porque está recebendo um diagnóstico que muda tudo”, avaliou.

O objetivo do workshop foi promover o debate público e a articulação de coletivos jovens, principalmente LGBTs, em torno da prevenção de Infecções Sexualmente Transmissíveis, do HIV e das Hepatites Virais. O que acaba sendo uma aposta destes jovens no fortalecimento das lutas pela superação da discriminação e da falta de informação. Pois, ao contrário do que se pensa, muita gente ainda não tem acesso sequer ao bê-a-bá da prevenção.

“Vivemos na era da informação e os jovens continuam se infectando. Isso porque acontece o efeito bolha: a informação existe, mas ainda não está disponível para uma grande parcela da população. Muito se discute no meio universitário e ativista, mas muita gente que precisa dessa informação ainda não tem. A gente ainda vive num mundo em que mães, quando descobrem que um filho tem HIV, querem separar talheres”, destacou Marcos Borges, infectologista conhecido em seu blog e noYoutube como Doutor Maravilha.

O workshop contou com o apoio do Programa Municipal DST/AidsCentro de Referência e Treinamento DST/Aids – SPCRT da Secretaria Estadual da SaúdeInstituto Latino Americano de Promoção e Defesa de Direitos HumanosInstituto Vida Nova Integração Social Educação e CidadaniaFundação Poder JovemÉ de LeiConexão Saúde Positiva; Coletivo Vertentes; Agência de Notícias da Aids; Hotel BoulevardInn; DKT BrasilUNAIDS Brasil; e UNICEF Brasil.

O projeto Fortalecendo Laços – Juventude, Sexualidade e Direitos Humanos acontece em parceria com o Programa Municipal DST/Aids, da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, através do convênio 026/2015/SMS-G.

Aviso de Licitação

De acordo com a 9433/05, artigo 50, alínea lll, KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço está tramitando a licitação para aquisição de equipamentos referentes ao projeto Comércio Quilombola – Apoio a Grupo de Mulheres Quilombolas no Baixo Sul da Bahia, Edital da  SETRE 001/2014 – SETRE, a partir de dia 28 de agosto de 2017. As cartas serão abertas as 10h30 do dia 6  de outubro de 2017, sob o regime de menor preço.  Aos convidados foi entregue o Memorial descritivo.

Abaixo Especificação de materiais a serem adquiridos, para apresentação de carta proposta de venda, clique e acesse: “Especificação de materiais a serem adquiridos, para apresentação de carta proposta de venda“.

Aids e religiões: um tema central no enfrentamento à epidemia (de preconceito)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ester Lisboa

Dos dias 14 a 17 de setembro aconteceu no Centro de Expansão Crato (CE), o 4º Aids e Religiões. O Seminário foi organizado pela ABEMAVI Associação Beneficente Madre Maria Villac, em parceria com KOINONIA e outras instituições.

Representando KOINONIA, Ester Lisboa ficou responsável pela mística de abertura, trazendo uma reflexão sobre a diversidade e a importância de dividir com o outro os desafios que a Aids traz no seu dia a dia.

O Jogo de tabuleiro humano com informações sobre prevenção de HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis, “Prevenidas Game”, agitou a oficina “Juventude, Sexualidade e Direitos Humanos”. Na brincadeira, os jovens tiveram a oportunidade de refletir em conjunto sobre a temática da sexualidade, identidade de gênero e saúde.

Em outra oficina, o tema foi “Fé, solidariedade e compromisso na luta contra Aids”.  Iniciando com uma reflexão do Papa Francisco, que recomenda repensar a vida. A oficina evidenciou que o compromisso na luta contra a Aids não é com o vírus (disto os cientistas estão cuidando), mas com pessoas que vivem com HIV, Aids ou que correm o risco de se infectarem.  Para tanto precisamos mergulhar em nós mesmos, a fim de ouvir melhor os outros e sermos capazes de manejar as dificuldades inevitáveis que possam advir.

 

 

 

 

 

 

“O Ser humano é estranho…
Briga com os vivos, e leva flores para os mortos;
Lança os vivos na sarjeta, e pede um “bom lugar para os mortos”;
Se afasta dos vivos, e se agarra desesperados quando estes morrem;
Fica anos sem conversar com um vivo, e se desculpa, faz homenagens, quando este morre;
Não tem tempo para visitar o vivo, mas tem o dia todo para ir ao velório do morto;
Critica, fala mal, ofende o vivo, mas o santifica quando este morre;
Não liga, não abraça, não se importam com os vivos, mas se autoflagelam quando estes morrem…
Aos olhos cegos do homem, o valor do ser humano está na sua morte, e não na sua vida.
É bom repensarmos isto, enquanto estamos vivos!”
(Papa Francisco)

Antes de começarmos a entender as outras pessoas, precisamos entender a nós mesmos. A vontade de ajudar é naturalmente um aspecto muito importante, mas somente ela não será suficiente para um auxílio frutífero e uma cura amigável (cura amigável é a criação de um espaço onde aqueles que sofrem podem dizer as suas estórias a alguém que pode ouvi-los com uma atenção real, sem julgamentos).

No ministério de Jesus vimos a importância de cuidado próprio. Ele sempre teve tempo para estar sozinho, assim como teve tempo para estar com os outros nas suas dificuldades. Jesus tenta em todo tempo ouvir a Deus. Num ritmo de dar e receber: ele ouve as pessoas. Não somente através de suas palavras, mas também do seu coração.

Dossiê Intolerância Religiosa

Criado em 2010 e administrado desde então por KOINONIA, o dossiê reúne conhecimento e informação (desde notícias, passando por artigos acadêmicos, até vídeos) sobre o tema, visando contribuir para a produção de saberes sobre o problema da intolerância religiosa e a qualificação do debate público sobre a questão.