Fortalecendo Laços inicia ciclo de oficinas de 2017

<p>Aconteceu no sábado (11), o primeiro encontro do ciclo de oficinas do projeto “Fortalecendo Laços: Juventude, Sexualidade e Direitos Humanos”, parceria entre KOINONIA e a Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo.</p><p>Neste primeiro momento foi abordada a temática “juventude e o preconceito” pelo sociólogo e doutor em saúde pública Ideraldo Beltrame. Cerca de 20 participantes, dentre jovens, pesquisadores, professores, estiveram presentes.</p><p>Em sua abordagem, Ideraldo começou tratando sobre as questões de vulnerabilidade social que envolvem a vida de muitos jovens, principalmente tratando da população LGBT. Após um momento de descontração com um lanche, a segunda parte da oficina foi sobre as questões de sexualidade e identidade de gênero, tema que está em alta e gera muitas dúvidas e confusões.</p><p>As próximas oficinas acontecerão nos dias 25 de março, 1 e 8 de abril e fazem parte das diversas ações do Fortalecendo Laços que visam promover a formação da população, sobretudo jovem, sobre questões de Direitos Humanos e Sexualidade.</p>

Equipe do Transcidadania participa de encontro sobre acolhimento da população T e abuso de drogas

<p><a href=”http://koinonia.org.br/wp-content/uploads/2017/03/koinonia_whatsapp-image-2017-02-23-at-18.26.24-3.jpg”><img src=”http://koinonia.org.br/wp-content/uploads/2017/03/koinonia_whatsapp-image-2017-02-23-at-18.26.24-3.jpg” alt=”WhatsApp Image 2017-02-23 at 18.26.24 (3)” width=”1040″ height=”585″ class=”alignright size-full wp-image-5549″ /></a><br /><em>Natália Blanco</em></p><p>No dia 23, Symmy Larrat, assistente de coordenação do Transcidadania, participou do encontro “Tecendo as redes de cuidado familiar”, do programa estadual Recomeço Família, no Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod), na região da Luz, SP.</p><p>O tema da conversa foi “Relação entre identidade de gênero e abuso de drogas” e Symmy falou sobre identidade de gênero e orientação sexual. Outra das palestrantes, a psicopedagoga do Cratod, Ariadne Ribeito, falou do tema do ponto de vista da área da saúde.</p><p>Sammy abordou a rejeição e violência, em geral, sofrida desde muito cedo por transexuais e travestis) em suas próprias famílias. A assistente de coordenação falou ainda de como as frustrações decorrentes desse tipo de situação podem ser depositadas em vícios em drogas ou álcool, posteriormente.</p><p>“A identidade de gênero está ligada a quem eu sou e como eu me reconheço, porém, nossa sociedade é patriarcal, e a figura do homem e mulher é bem definida pelos órgãos genitais, ou seja, o lugar onde nós recebemos a primeira violação de direitos humanos é na família, pois é pecado, é amoral, e a família não foi ensinada a acolher essa pessoa. Logo, ou essa pessoa é expulsa de casa, ou vive uma verdadeira tortura psicológica dentro da família”, diz Symmy.</p><p>Uma outra questão importante no debate foi o atendimento da população T nos serviços públicos. A falta de uma regulação das instituições públicas, nesse sentido, acaba fazendo com que elas reproduzam a discriminação do conjunto da sociedade, negando dessa forma direitos básicos.</p>

KOINONIA recebe visita técnica de monitoramento do projeto Fortalecendo Laços

WhatsApp Image 2017-02-14 at 14.53.01Na última terça-feira, o escritório de KOINONIA em São Paulo recebeu representantes do Programa Municipal de DST/ Aids para uma visita técnica de monitoramento do Projeto Fortalecendo Laços.

O motivo foi a análise da caminhada do projeto, discussão de novas possibilidades e encaminhamentos para eventuais dificuldades.

Foi ressaltada a importância que uma iniciativa como o Fortalecendo Laços tem para conseguir traduzir para a linguagem da juventude os temas ligados à prevenção e sexualidade. Também foi mencionado o desafio que é realizar ações desse tipo no contexto atual.

Por fim, os visitantes reconheceram a importância de atividades inovadoras  de comunicação com jovens que vivem novas dinâmicas de relacionamentos, já que somente os métodos tradicionais já não têm tanto impacto nessa população.

 

Visita ao Museu Afro de SP com participantes do Transcidadania

FOTO: Natália Blanco
FOTO: Natália Blanco

Natália Blanco
A atividade, nesta terça-feira, 14, foi diferente, fora dos espaços das aulas. Acompanhadas pela equipe de pedagogia, as participantes do Transcidadania realizaram uma visita guiada ao Museu Afro, no parque Ibirapuera, SP.

“O que vocês sabem sobre a história da África?”. Essa foi a pergunta feita às visitantes assim que chegaram. “O que nos foi ensinado, em termos de história africana, quando estamos na escola?”, indagou Rafael Domingos, educador do Museu Afro e guia. “O que IMG_2098contam para nós éaquela história do Pedro Álvares Cabral, da colonização dos indígenas, e dos navios negreiros. Mas a história dos povos africanos, a história de como se deu o período migração forçada desses povos, a história de como eles chegaram aqui, isso não é ensinado nas escolas.E isso acontece até hoje, a mídia não noticia, por exemplo, que a guerra no Congo já matou 6 milhões de pessoas. Então, é preciso contar essa história novamente, partindo de outra perspectiva, a perspectiva da cultura afro”, ressalta.

Rafael conduziu a visita partindo da questão da religiosidade. Ponto que chamou muito a atenção de Luciana Andrade, de tradição católica e umbandista, que ficou impressionada com as obras que faziam referências e contavam as histórias dos orixás brasileiros. “Vir aqui nesse parque e conhecer
 o museu é a realização de um sonho. Moro em São Paulo há mais de 20 anos e nunca tinha vindo para cá, só via pela televisão”, diz Luciana, animada enquanto observa uma escultura de São Miguel Arcanjo, santo católico.

O roteiro do passeio, organizado pelo antropólogo e professor do programa Bruno Puccinelli, incluiu a ida, de ônibus, até o parque, onde ele contou alguns aspectos históricos e geográficos de onde o parque fica localizado, como o Monumento às Bandeiras, o Obelisco, e até o planejamento da vegetação do parque. “O fato do parque Ibirapuera ter sido inaugurado no aniversário de 400 anos da capital e estar localizado numa região considerada nobre, tem um motivo, a disputa econômica entre Rio de Janeiro e São Paulo, e a necessidade IMG_2101de mostrar como São Paulo era uma metrópole moderna e avançada tecnologicamente”, conta às meninas.

Tais reflexões fizeram com que Paloma Vieira, outra participante do programa, fizesse uma análise de que a violência que vivemos hoje, o racismo e os preconceitos, refletem a história de colonização e escravidão.

Essa é mais uma atividade da Formação em Direitos Humanos e Cidadania, proposta pelo programa, fruto de parceria entre KOINONIA e a Prefeitura de São Paulo. Para Melissa de Oliveira, também beneficiária, foi uma experiência de muito aprendizado. “Afinal é pela a educação que nós vamos mudar o mundo”, afirma.

#Transcidadania | “Elis” exibido no Cine Gênero

FOTO: Natália Blanco
FOTO: Natália Blanco

Na primeira semana de fevereiro, beneficiarias/os do programa Transcidadania participam do Cine Gênero, que tem sempre em cartaz filmes que abordam temas como o dos direitos humanos, da desigualdade de gênero, da política e cidadania. A programação faz parte da formação em Direitos Humanos e Cidadania.

O filme desta semana é “Elis”, biografia de uma das maiores cantoras da história do Brasil. O longa faz vários recortes de momentos importantes da vida e carreira da artista, desde sua chegada ao Rio de Janeiro em 1954 até 1982, ano de sua morte.

Além de trazer questões de gênero, por se tratar da trajetória de uma mulher que lutou e marcou a história da Música Popular Brasileira, o filme reflete um pouco do contexto histórico da ditadura militar.

A proposta pedagógica desse tipo de atividade é ampliar o repertório cultural e estimular o exercício crítico. A cidadania plena compreende também a igualdade de oportunidades de fruição do amplo conjunto de bens culturais que a sociedade produz. 

Encontrão Quilombola de Mulheres do Baixo Sul da Bahia

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Ivana Flores

Dona Maria Leite no preparo da moqueca de jaca verde (FOTO: Ivana Flores)
Dona Maria Leite no preparo da moqueca de jaca verde (FOTO: Ivana Flores)

Entre os dias 6 e 8 de fevereiro, o Barroso, quilombo no Baixo Sul da Bahia, abriu suas portas para receber mulheres de outras comunidades vizinhas em um evento que elas batizaram de ‘Encontrão Quilombola’.

Com a participação de 40 mulheres de 10 diferentes comunidades, este foi um intercâmbio que teve entre os principais objetivos debater saúde alimentar; valorizar a produção rural feminina, criando estratégias para sua comercialização nos mercados locais; além planejar ações e mobilizações para 2017. O Serviço de Assessoria a Organizações Populares (O SASOP) e KOINONIA foram as instituições que ajudaram a facilitar o planejamento.

O Encontrão já rendeu o primeiro fruto: uma agenda para o próximo dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, com uma série de atividades programadas envolvendo as comunidades quilombolas da região. Além da mobilização, o evento serviu ainda para o reforço dos laços de solidariedade entre as comunidades negras tradicionais, mas, sobretudo, entre as mulheres que puderam aproveitar além dos debates, o contato face a face.  

O ‘Encontrão’ teve ainda uma visita do grupo às propriedades de mulheres do Barroso, que já

Ana Gualberto (KOINONIA) e Lucimara (SASOP) (FOTO: Ivana Flores)
Ana Gualberto (KOINONIA) e Lucimara (SASOP) (FOTO: Ivana Flores)

mantêm pequenos empreendimentos rurais, comercializando sua produção na feira de Camamu ou nas próprias casas. Ali, mulheres das outras comunidades puderam ver de perto e na prática como é o dia a dia das empreendedoras e tirar dúvidas.

Quando todas se juntaram para cozinhar, cada qual levou algo produzido em seu próprio quintal ou roça. As mulheres foram dividas em grupos responsáveis pelo preparo de pratos que seriam servidos no almoço coletivo. A interação rendeu mais de 10 especialidades: moqueca de jaca verde, casca da banana da terra empanada e vatapá de aipim foram os destaques. No encerramento, o tradicional samba de roda, de pé no chão, saia de chita e muita palma na mão. 

Beneficiárias do Transcidadania e KOINONIA levam demandas da população T para secretária de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo

FOTOS: Natália Blanco
FOTOS: Natália Blanco



Natália Banco

Nesta quinta feira, 2 de fevereiro, KOINONIA e um grupo de beneficiárias do programa Transcidadania participaram de uma reunião com a nova secretária de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, Patrícia Bezerra e o secretário adjunto, Thiago Amparo.  Patrícia, além de assumir a pasta da nova gestão, também é vereadora e psicóloga.

 Marcele Gatti, Lohanny Brandao, Demily Nóbrega e Rose Mary, obtiveram ótimas notas no ENEM e vão usá-las para avançar suas escolaridades, e no encontro, levaram para o debate os desafios vividos no que se refere a inclusão e visibilidade eficaz da população T.

visita_transcidadania_secretaria_1Rose destacou para a secretária falou sobre a importância do acolhimento da sociedade para com homens e mulheres transexuais. “Se eu tivesse um acolhimento aqui em São Paulo, logo quando cheguei, muitas coisas teriam sido melhores para mim. Graças a Deus e à minha formação de caráter eu consegui não me envolver em situações que pudessem que deixar vulnerável, mas sei que para muitas outras meninas, a história acaba sendo diferente”.

As meninas também relataram as dificuldades de inserção de pessoas transgêneras no mercado de trabalho, que buscam uma autonomia como meio de driblar os preconceitos e a discriminação, fatos que impossibilitam essa população a alcançar seus objetivos, e deixando-as em situações de vulnerabilidade.

Para Demily, “foi um encontro muito especial para nós, transexuais, pois além de termos a oportunidade de sermos ouvidas, nos sentimos acolhidas por alguém que ocupa um carga importante na administração pública, que se dispôs a saber de nossas histórias e a trabalhar pela população T”.

Patrícia acolheu prontamente todas as sugestões e demandas levadas pelas meninas, e se comprometeu com as demandas apresentadas, e ressaltou também a importância da capacitação dos órgãos públicos para receber de forma correta homens e mulheres transexuais e travestis.

Transexualidade e religiosidade são temas em mesa de discussão em São Paulo

FOTOS: Marianne Clemente
FOTOS: Marianne Clemente

No dia 2 de fevereiro aconteceu a mesa de discussão, “TRANScendendo a fé”,um dos temas abordados pela I SEMANA DA DIVERSIDADE E IDENTIDADE TRANS, articulada pelo organizativo Transidentidades.

O evento, que contou com participação de KOINONIA, reuniu cerca de 200 pessoas na Catedral Anglicana da Santíssima Trindade, em São Paulo, e foi conduzido por representantes da população T de diferentes segmentos religiosos. Uma das convidadas, a travesti Giu Nonato, falou sobre sua experiência religiosa no Candomblé e a relação com sua sexualidade e identidade de gênero.

IMG_4185 (1)“Tenho sorte de fazer parte de uma família na qual eu sou aceita do jeito que sou. O Candomblé é uma religião que transmite muito acolhimento nas suas famílias, mais ainda assim, por ser uma religião em que a definição dos gêneros é bem definida, muitas mulheres ou homens transexuais, travestis e pessoas transgêneras acabam sofrendo com o preconceito, infelizmente”.

Após a mesa de discussão, o público ainda pode assistir à peça “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu” de autoria da dramaturga britânica Jo Clifford, e montagem e direção de Natalia Mallo.

Interpretada pela atriz Renata Carvalho, travesti, a obra reconta histórias bíblicas, como “O Bom Samaritano”, “A semente de mostarda”, “A Mulher Adúltera” e o “Filho Pródigo”, o monólogo propõe uma reflexão sobre a opressão e intolerância sofridas pela população T e outras minorias e reitera valores cristãos como amor, perdão e aceitação. O espetáculo termina com uma celebração da Santa Ceia e oração comunitária, envolvendo todo o público, simbolizando o ideia de que todos somos Jesus, que partilhamos a vida, o corpo, as vivências e caminhadas.

#VisibilidadeTrans

 

FOTO: Angélica Tostes
FOTO: Angélica Tostes



Natália Blanco

“Ser uma mulher trans é um desafio como o de uma mulher que vive sob uma cultura machista. Nossa luta é contra o machismo, e por sermos mulheres trans, temos algumas dificuldades a mais”, diz a cabeleireira Demily Nóbrega, 48.

As “dificuldades a mais” são as de viver em um país em que só em 2016, cerca de 140 transexuais foram assassinados, segundo o último relatório do Grupo Gay da Bahia.

Um desafio que exige resiliência. Um desafio que exige“estar vivo por teimosia e lutar para se manter em pé e com dignidade” como completa Luciano Medeiros, 40, homem trans.

FOTO: Angélica Tostes
FOTO: Angélica Tostes

Ainda segundo o relatório, divulgado no último dia 23 de janeiro, 343 assassinatos foram cometidos no ano passado. Desse número, 42% foram contra transexuais e travestis. Os estados que registraram o maior número de pessoas LGBT assassinadas foram São Paulo com 49 casos; Bahia, 32; Rio de Janeiro, 30; e Amazonas, 28. Proporcionalmente, pessoas transexuais e travestis são as mais vitimizadas: o risco de uma pessoa trans ser assassinada é 14 vezes maior que um gay, por exemplo. Se compararmos com os Estados Unidos, as brasileiras têm 9 vezes mais chance de morte violenta do que as norte-americanas.

Tanto para Demily, que vai iniciar seus estudos na faculdade de Direito, quanto para Luciano, parte da superação do desafio está no conhecimento de seus direitos.

Em São Paulo, Demily participou, no último domingo (29), Dia Nacional da Visibilidade Trans, de um ato que reuniu pessoas de diferentes coletivos em favor da luta pelos direitos LGBT e em especial pelos direitos da população T, que foram protagonistas.

“Eu descobri que eu tinha direitos quando comecei a militar, e aprendi que preciso reivindicá-los. Quero usar minha faculdade para poder ajudar outras pessoas transexuais a conquistarem esse empoderamento e entendimento que eu conquistei”, diz a cabeleireira.

Conhecer e ter entendimento de seus direitos é essencial para que a pessoa “tome posse de coisas que existem para todos os cidadãos”, segundo Luciano. “Durante o programa Transcidadania aprendi muito no curso de Direitos Humanos, e ao longo da minha caminhada fui adquirindo conhecimento sobre meus objetivos e direitos. Sou consciente que a jornada é longa, mas tenho fé que um dia, nós, transexuais, teremos nosso espaço”,acrescenta.

O Transcidadania, programa coordenado por KOINONIA em parceria com a Prefeitura de São Paulo tem como premissa empoderar a população T. Segundo Symmy Larrat, assistente de coordenação do programa, é uma resposta do Estado à situação de exclusão. “Muitas pessoas, por não conseguirem vivenciar o gênero com o qual se identificam na sua localidade de origem, por conta de preconceito e de uma ausência de políticas públicas, acabam migrando para São Paulo para conseguir ser quem são, utilizar tecnologias de adequação de corpo, e, às vezes, se submeter a subempregos”.

A luta de Demily, de Luciano e de tantas outras mulheres e homens trans não é somente por visibilidade, e sim pelos mesmos direitos que todas as outras pessoas têm. É pelo direito de ocupar todos os espaços que todas as outras pessoas ocupam.

O racismo de quem narra os massacres nas prisões

presidio 3A crise no sistema carcerário trouxe de volta temas como a superlotação das unidades, direitos das pessoas privadas de liberdade e ressocialização de detentos e ex-detentos. São mais de 600 mil pessoas em jogo (sem falar em seus familiares), 62% dos presos negros e mais da metade com entre 18 e 29 anos.

Gente que não desaparecerá do dia para a noite como querem apresentadores histriônicos e comentadores extremados dos portais de notícias. Todos têm soluções já prontas, fórmulas mágicas ou simplesmente bordões, no meio de um deserto de propostas. A ideia de que leis mais duras e reações mais enérgicas resolveriam tudo, ignora ainda que no Brasil foram mortas, somente em 2014, quase 60mil pessoas, criminosas ou não. Entre os jovens assassinados 77% foram negros. Isto é, se o Estado não os executou pelas próprias mãos, sua omissão acabou por produzir tal resultado. Seria a violência e o endurecimento das penas os melhores antídotos?

“Essas vozes que clamam por posturas mais firmes das autoridades acabam ocultando um consentimento perverso: o da pena de morte. Proteger apenados e indenizar famílias de pessoas assassinadas em instituições que deveriam reeducá-las são encarados como tratamento desigual e gasto desnecessário com quem mereceria repressão violenta. Há uma inversão”, lembra Rafael Oliveira, diretor executivo de KOINONIA.

A ideia de que a solução é prender ou matar mais e de que a polícia perdeu o seu poder é repisada como se tal “política de segurança” já não estivesse em curso, além de aplicada com rigor sobre o contingente jovem e negro. Patrícia Tolmasquim, membro do Conselho Estadual de Direitos Humanos do Rio de Janeiro, afirma que a partir daí, além dos criminosos, o grande bode expiatório têm sido os defensores dos direitos humanos.

“A mídia ao divulgar constante e massivamente a situação nos presídios está atuando para desqualificar de vez os defensores dos direitos humanos. Pautados na narrativa repetitiva nos últimos dias, insinuando por meio da fala de analistas convidados que ‘os culpados pela crise dos presídios são os ‘Direitos Humanos’ que teriam ‘vencido’ ao convencer o governo a negociar no que ficou conhecido como o Massacre do Carandiru. Nessa versão, o poder de violência teria sido retirado das polícias, fortalecendo os criminosos”.

Segundo Rafael Oliveira a mídia reflete o olhar discriminatório entranhado no imaginário social, sancionando a barbárie do Estado contra a população negra.

 “A persistência do sensacionalismo e das imagens da crise no Presídio Alcaçuz, em Natal, mostram imagens de jovens negros animalizados pela edição, circulando como verdadeiras feras enjauladas. Aí se flagram caricaturas vivas de uma bestialidade atribuída aos negros por séculos de preconceito ainda bem vivo no inconsciente coletivo”, comenta Rafael Oliveira.

Até ontem (24), o governo do RN não sabia sequer o tamanho da população carcerária dos presídios em que houve o último massacre. Em entrevista para a Exame, o representante regional para América do Sul do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos (ACNUDH), Amerigo Incalcaterra, declarou que a impunidade em casos de tortura praticados por agentes públicos contra presos hoje é regra no sistema penitenciário brasileiro.