Há 24 anos na luta contra as intolerâncias e por direitos humanos: pelo fim da violência contra a mulher

Estamos em um momento em que posicionamentos extremos ganham apoio junto com a presença de discursos de ódio no cenário público. O estudo divulgado pelo conselho Nacional de Justiça no início de 2018 revelou que 1 a cada 100 mulheres brasileiras abriu uma ação judicial por ter sofrido violência doméstica. Cerca de 12 mulheres são assassinadas no Brasil todos os dias, segundo o Núcleo de Estudos da Violência da USP e Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

A temática da violência contra a mulher é ampla e justamente por isso, acaba sendo presente em praticamente todas as iniciativas de KOINONIA. Seja em qualquer âmbito das intolerâncias. Diversidade religiosa, discussões sobre gênero e população LGBTT e na luta pelos direitos das comunidades negras tradicionais.

Ao longo desses 24 anos de trajetória, KOINONIA em sua diversidade de projetos e iniciativas promove reflexões sobre a temática da violência contra a mulher em vários espaços, igrejas, escolas, terreiros, comunidades periféricas, oficinas, seminários, rodas de conversa entre outros. Tendo como objetivo a promoção de direitos, ressaltando a importância de ações para o empoderamento das mulheres, estas que lideram praticamente metade dos lares brasileiros de acordo com dados do IPEA de 2017.

*A foto, tirada pela antropóloga Fabiene Gama, foi feita depois 6 meses de trabalho de campo aplicando questionários para elaboração de um relatório socioeconômico para o Projeto Balcão de Direitos, promovido em parceria pela Secretaria Especial de Direitos Humanos (Sedh) e pelo Programa Egbé – Territórios Negros, de KOINONIA.

Por Natália Miguel Blanco

Justiça de gênero e direitos da população LGBTT

Há 24 anos na luta contra as intolerâncias e por direitos humanos

Não é de hoje que causas de gênero e sexualidade caminham juntas. E se falamos de justiça, vemos como a população LGBTT teve e tem ao longo da história seus direitos violados das mais diversas formas.
Especificamente se tratando de mulheres e homens transexuais e travestis, é gritante a necessidade de discussão e reflexão sobre os padrões de gênero e sexualidade.
No Brasil avançamos na pauta com o direito ao processo transexualizador pelo SUS desde 2008; o direto ao uso do nome social também no SUS e em outros âmbitos, como no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e outras legislações municipais, como em São Paulo.
De 2015 a 2017 KOINONIA ficou responsável por um programa pioneiro na cidade de São Paulo. O programa Transcidadania, parceria com a Secretaria Municipal de Direitos Humanos da então gestão Haddad, que atendeu cerca de 250 transexuais e travestis em situação de vulnerabilidade social.
Diversas equipes da administração pública englobavam o projeto: Direitos Humanos, Educação, Saúde, Assistência Social, Trabalho e Mulheres.
Entre grandes marcos do programa foi a inclusão das beneficiárias e beneficiários do programa de volta à escola para a conclusão dos estudos, e inúmeros processos de retificação de registro civil realizados em parceria com o setor jurídico dos Centros de Cidadania LGBT da prefeitura.
Mas 2018 está aí e diante de tantas vitórias ainda nos deparamos com dados que refletem as mazelas da intolerância. No relatório lançado dia 18 de janeiro de 2018 pelo Grupo Gay da Bahia (referência na tabulação de dados sobre a população LBGTT), o Brasil bateu o recorde de mortes de pessoas LGBTT no ano de 2017. O número de vítimas de transfobia, lesbofobia e homofobia aumentou cerca de 30% em relação a 2016. A cada 19 horas uma pessoa foi morta por ser travesti, transexual, lésbica, bissexual ou gay.
E é na perspectiva da luta por justiça que KOINONIA segue reafirmando seu compromisso com a mudança, promovendo diálogos de informação, formação, escuta e solidariedade. Para que todas as pessoas sejam vistas com igualdade, acolhidas e cuidadas com dignidade e com plenos direitos garantidos.

Por Natália Miguel Blanco

KOINONIA convida: Audiência Pública Violência HomoLesboTransFóbica

Clarisse Braga

A Audiência Pública Violência HomoLesboTransFóbica acontece no dia 5 de junho, às 19h, na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, localizada na Av. Pedro Álvares Cabral, nº 20.

Os atos de violência motivados pelo preconceito quanto à orientação sexual e identidade de gênero (homolesbostransfobia) vêm atingindo cada vez mais pessoas em todo mundo. Desde palavras ofensivas e atitudes de desrespeito até assassinatos com requintes de crueldade, a homolesbostransfobia está presente em todos os ambientes: nas casas, escolas, locais de trabalho, serviços públicos e nas ruas.

No Brasil, segundo dados da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, no ano de 2012 foram registradas 9.982 violações de diversas ordens quanto aos Direitos Humanos da população LGBT, número muito longe do real, dado o fato da grande maioria das pessoas agredidas não procurarem ajuda, e, muitos crimes homolesbostransfóbicos não serem investigados adequadamente.

A promoção do debate e do diálogo quanto à violência homolesbostransfóbica entre os poderes públicos e a sociedade civil torna-se, portanto, imprescindível para a superação social de mais este preconceito, resgatando-se uma dívida histórica de justiça para com a população LGBT.

A participação de todas as pessoas comprometidas com a preservação dos Diretos Humanos, independentemente de identidade de gênero ou orientação sexual, na Audiência Pública da Violência Homolesbostrasnfóbica da Assembleia Legislativa de São Paulo é, portanto, fundamental.

Visite o evento no Facebook e saiba mais.

KOINONIA apoia as religiões de matriz africana

KOINONIA – Presença Ecumênica e Serviço está solidária com o recurso impetrado pelo Ministério Público Federal ao TRF-2 contra os termos da decisão do Juiz Eugênio Rosa de Araújo, da 17ª Vara Federal do Rio de Janeiro.

KOINONIA repudia a decisão que deprecia as religiões de matriz africana – e incita o ódio às mesmas.  Apesar de afirmar que não trataria de definir o que é religião, o Juiz citado, acaba por definir de forma errada o conceito de religião, o qual exclui religiões tradicionais e sem textos como fundamento. Responsabilizando-se, além do erro, pelo poder como agente do Estado de estabelecer o que é e o que não é religião, ato que em si é contra a Constituição de 1988 e às bases de um Estado Laico.

Ademais, a definição errada pode servir de esteio para afirmar que as agressões não correspondem a risco ao culto e à sobrevivência das religiões de matrizes africanas e brasileiras, candomblé e umbanda. Demonstrando desconhecimento e desprezando os atos de violação de espaços sagrados e, até mesmo, assassinatos fundados em intolerância religiosa no Brasil. Os argumentos aludidos pelo Magistrado terminam por ser, também, ingredientes para o caldo cultural da intolerância religiosa vigente em nosso País.

Em favor da liberdade religiosa, do respeito às diferenças e pelo direito de auto-atribuição de identidade religiosa das cidadãs e cidadãos, KOINONIA se soma a todas as pessoas que se mobilizam pela urgente reparação de erro tão grotesco e pela jurisprudência definitiva que impeça a sua repetição, no tempo presente e para as futuras gerações.

Carta aberta: Convite para ato público pelos mortos da AIDS

KOINONIA, Sefras, Pastoral da AIDS, Projesp

O ato público tem por finalidade dar visibilidade à Vigília Internacional sobre a AIDS, coordenada pela Rede Mundial de Pessoas que Vivem com o HIV, uma das maiores e mais antigas campanhas de mobilização popular para promover a sensibilização sobre o HIV no mundo. Começou no ano de 1983 e se celebra a cada terceiro domingo de maio sob a liderança de organizações comunitárias, sanitárias e religiosas de 115 países. A Vigília, tendo em conta que milhões de pessoas vivem atualmente com o vírus, é uma intervenção importante para promover a solidariedade mundial, reduzir o estigma e a discriminação e dar esperança às novas gerações.

Em três décadas de lutas, avanços e conquistas pela erradicação do HIV/AIDS. Estigma, discriminação e preconceito ainda estão presentes, vitimizando pessoas que vivem com vírus. Devido a isso os diagnósticos continuam sendo tardios e as pessoas que vivem com o vírus não acessam os serviços de saúde para o próprio tratamento.

Em São Paulo, diferentes credos religiosos, junto a Pastoral da AIDS – organismo criado pela Conferência dos Bispos do Brasil, Sefras, Projesp e KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço se unem, no mês de maio, para trazer à memória os amigos, parentes, conhecidos vítimas da epidemia e transformar a memória em compromisso.

Em 2014 o tema para reflexão é “É preciso manter o foco”. Manter o foco na AIDS é lutar pelo acesso ao tratamento e prevenção; é superar o preconceito e discriminação, é se indignar com mortes que poderiam ser evitadas; é promover o diagnóstico precoce e auxiliar na adesão do tratamento e viabilizar os serviços.

Para tanto, convidamos pessoas que vivem e convivem com HIV\Aids, comunidades religiosas, organizações governamentais e não governamentais a estarem conosco dia 25 de maio, no Elevado Costa e Silva (Minhocão), das 10h às 16h para manifestarem suas opiniões e compromissos com os familiares que perderam seus entes queridos, vitimados pela indiferença, intolerância e preconceitos.

KOINONIA realiza celebração e debates pelos seus 20 anos de presença ecumênica e serviço

Thiago Ansel e Natasha Arsenio

O fim de abril foi marcado por festejos e trocas de experiências neste ano em que KOINONIA completa duas décadas. Entre os dias 25 e 26, com o apoio da Fundação Heinrich Böll e da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), associados, parceiros e representantes da sociedade civil participaram de um ato ecumênico e inter-religioso em homenagem ao vigésimo aniversário da instituição e de um seminário que abordou a questão da reforma política.

A celebração inter-religiosa, que aconteceu na capela do Colégio Sion, no Cosme Velho, Rio de Janeiro, teve ares de renovação de votos, reunindo religiosos e não religiosos que têm em comum o desafio de seguir lutando pela superação das desigualdades e de todas as formas de intolerância.  

“Temos buscado trabalhar a diversidade religiosa. Acho que conseguimos, porque hoje temos aqui reunidas pessoas, experiências e vivências, que certamente em outra situação estariam separadas”, observou o bispo metodista Paulo Ayres, sócio-fundador e presidente de KOINONIA.

A cerimônia litúrgica lembrou momentos históricos da entidade, emocionando os presentes. O momento ainda proporcionou encontros e reencontros de novos e antigos associados e outras pessoas que fizeram parte dessa trajetória. “Espero que esse espírito do diálogo inter-religioso, do respeito, da luta contra o preconceito permaneça vivo por mais muitos anos”, desejou Ivanir dos Santos, babalorixá e interlocutor da Comissão de Combate a Intolerância Religiosa.

O segundo dia de comemoração (26) foi dedicado a debates e análises de conjuntura, com o seminário “Reforma Política e Desigualdades”. O objetivo principal do evento foi marcar os 20 anos de KOINONIA prestando também um serviço público: o de pautar questões estruturantes no processo democrático, no que diz respeito à política partidária e à efetiva participação da sociedade civil.

O público acompanhou três mesas de debates com palestrantes que discutiram diferentes aspectos do tema principal. Abrindo os trabalhos, Robson Leite e Eliana Rolemberg falaram sobre a atuação de organizações não governamentais, articulações e parlamentares na construção do novo Marco Regulatório para a Sociedade Civil. “O projeto de lei para regular a sociedade civil em tramitação, embora tenha suas limitações, traz ganhos e tem apoios importantes de parlamentares. O que aparece na mídia é sempre no sentido de criminalizar as organizações da sociedade civil. Então, elas acabam não sendo conhecidas por seu trabalho na defesa de direitos e no reforço dos valores democráticos”, afirmou Eliana.

Paulo Ayres e o fundador e associado de KOINONIA, Anivaldo Padilha, compuseram a segunda mesa cujo tema foi "Reforma Ontem e Ditadura. Desafios da Política Hoje e os (Des)Caminhos da Direita e da Esquerda Religiosa". Para Padilha, mesmo 50 anos depois, o que se percebe é “o grande atraso político e social deixado pelo regime militar”.O dia terminou com a mesa "Reforma Política", onde falaram Moema Miranda, do Ibase, Romi Bencke, do Conselho Nacional de Igrejas (Conic) e Fórum Ecumênico ACT Brasil (FE ACT Brasil), e Luciano Santos, membro do Movimento de Combate a Corrupção Eleitoral (MCCE).

Romi alertou sobre a existência de mais organizações religiosas do que associações como sindicatos e cooperativas no Brasil. “Temos que saber que impacto isso tem na formação de uma sociedade crítica, principalmente quando temos um aumento da presença dessas entidades em espaços de participação política”, destacou.

O representante da Plataforma pela Reforma Política, Luciano Santos, questionou a origem dos orçamentos utilizados em campanhas políticas. “Na última eleição, Dilma gastou R$ 150 milhões. Serra gastou R$ 140 milhões. Plínio de Arruda Sampaio gastou R$ 90 mil. Então, sem dinheiro não tem campanha atualmente. Minha mãe sempre disse: ‘quem paga a orquestra diz o que se baila’”.

Moema chamou atenção para as distorções entre as identidades da maior parte do povo brasileiro — os negros, as mulheres, por exemplo — e as de seus representantes no Congresso. “As elites conseguem, em grande medida, manter essa distância desde a ditadura. Temos que desqualificar a extrema riqueza que controla as eleições!”.

O encerramento das atividades só se deu para todos, na manhã do domingo (27), com a assembleia para os associados de KOINONIA no Hotel Scorial, no Largo do Machado.

KOINONIA recebe prêmio na 14° Feira Cultural LGBT

Clarisse Braga

Foto: Ester Lisboa (à direita) com a Ministra de Direitos Humanos, Ideli Salvatti.

KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço participou da 14° Feira Cultural LGBT que aconteceu na última quinta-feira (1) na Praça da República, em São Paulo/SP, com a presença de coletivos sociais, ONGs e do poder público federal, estadual e municipal.

O evento faz parte do tradicional Mês do Orgulho Gay, que anualmente toma lugar no mês de junho; no entanto, as comemorações foram antecipadas para maio devido aos jogos do mundial de futebol.

Esta foi a sétima vez que KOINONIA ocupou um stand na feira e levou sua vivência de luta pelos direitos igualitários e pelo fim da homofobia sob a ótica das religiões. “Todo ano é diferente, mas este foi mais ainda por ter sido na Praça da República; o espaço favoreceu um novo tipo de contato (e mais estreito) entre os visitantes e expositores”, esclarece a assessora do programa Saúde e Direitos de KOINONIA, Ester Lisboa.

Para Ester, este ano foi mesmo especial: em nome de KOINONIA, ela recebeu o Prêmio Cidadania em Respeito à Diversidade, entregue pela Associação da Parada do Orgulho LGBT, como fruto do longo caminho percorrido no combate à homofobia dentro das comunidades de fé. A premiação ocorreu durante o evento de 1° de maio e homenageou 17 categorias com indicações enviadas pela comunidade LGBT nas redes sociais e por e-mail.

Ações públicas, atividades, campanhas e muito bate-papo foram algumas das atrações do stand da organização que ainda contou com a colaboração de fiéis voluntários dispostos a dar aquele chega pra lá na homofobia. Os estudantes Gilberto Suzuki, Miriam Astorga e Gabriel Pascoal e o militante Marcelo Morais trabalharam sem parar na campanha Uma Mensagem Contra a Homofobia e na aplicação da pesquisa Juventude e Prevenção.

Para somar esforços, o fotógrafo e militante Sandro Eduardo Vichi documentou expressões e impressões através da lente de sua câmera. Para ele, KOINONIA marcou de forma alegre e descontraída sua presença na feira “abordando temas importantes sobre saúde e cidadania; o espaço foi acolhedor e com certeza fez a diferença, um ponto forte do stand foi o espaço de fotos e o bate papo cabeça”, finalizou Sandro.

Confira as fotos da 14ª Feira Cultural LGBT.

Dom Tomás Balduíno, doutor da fé

Marcelo Barros

O falecimento, no dia 02 de maio,  aos 91 anos de idade, de Dom Tomás Balduino, Bispo Emérito da Diocese de Goiás, deixou o país e suas diferentes comunidades religiosas entristecidas pela perda de um de seus mais notáveis defensores dos Direitos dos setores mais vulneráveis da população empobrecida e excluída da sociedade brasileira, notadamente os indígenas e os camponeses. Criador da Comissão Pastoral da Terra (CPT), órgão da Conferência Nacional do Bispos e grande promotor do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) Dom Tomás notabilizou-se por sua defesa intransigente da reforma agrária e dos direitos da população indígena a suas terras originais, à manutenção de sua cultura e sua dignidade enquanto seres humanos. Em seu ministério episcopal soube aliar seu compromisso evangélico às  grandes causas do povo empobrecido do país. Mais do que um dignatario da Igreja Católica Romana, a quem servia com lealdade, foi um bispo do povo, um teólogo orgânico cujas reflexões e compromissos sempre ultrapassavam as fronteiras da comunidade religiosa para levantar as bandeiras da dignidade e dos direitos a que todos, especialmente os mais vulnerabilizados da sociedade, devem usufruir numa sociedade verdadeiramente democrática. A teologia que conformava seu munus episcopal jamais foi restrita aos estreitos limites do que-fazer eclesiástico. Foi, de fato e de direito, uma theologia publica voltada para o bem-estar dos “pequeninos de Deus” numa sociedade marcada pela desigualdade e pela injustiça.

Tomamos a liberdade de publicar neste espaço o belo texto de Marcelo Barros sobre sua vida e ministério intitulado: “Dom Tomás Balduino: Doutor da Fé”
 
(FOTO: Wildes Barbosa | O Popular) 
 
  
Dom Tomás Balduíno, doutor da fé
Marcelo Barros
 
Nosso profeta foi para o céu. Essa pode ter sido a reação espontânea de muitos irmãos e irmãs, companheiros de caminho de Dom Tomás Balduíno que, ao longo da vida, sentiram-se ajudados e estimulados por ele a seguir Jesus Cristo e a testemunhar no mundo o projeto divino de justiça e paz. Principalmente os índios e lavradores, povo da predileção do coração de Dom Tomás, podem hoje sentir-se órfãos pela partida de alguém que a eles serviu desde a juventude até o seu último suspiro aos quase 92 anos. Entretanto, tantos eles como nós que convivemos mais profundamente, ao longo dos anos, com esse verdadeiro pastor da Igreja, choramos a saudade de sua presença visível, mas nos consolamos por tantos exemplos e ensinamentos que ele nos deixa como grande profeta de uma Igreja renovada e renovadora a serviço de um mundo mais justo e de uma humanidade mais irmã. 
 
Tive a graça de Deus de conviver com ele e, por um bom tempo, morar na mesma casa. Fui seu amigo e assessor desde 1977 até agora, quando a sua partida nos separou. Ainda há poucos dias, conversávamos sobre como apoiar a renovação da Igreja proposta pelo papa Francisco e ajudar as Igrejas locais a assumí-la. Assim como Dom Hélder Câmara, no Brasil, Dom Oscar Romero, em El Salvador e Dom Samuel Ruiz, no sul do México, Dom Tomás soube revitalizar a missão do bispo como  profeta da Palavra de Deus para o mundo. Para os oprimidos do mundo, ele foi realmente, como escreveu o profeta João no Apocalipse: “irmão e companheiro nas tribulações e no testemunho do reino” (Ap 1, 9).
 
Exatamente, por essa sua compreensão da fé e do ministério episcopal, Dom Tomás tornou-se mesmo para não crentes testemunha autorizada de Jesus, ilustre doutor da fé e de uma espiritualidade libertadora. Ele nunca restringiu sua missão ao âmbito da Igreja. Soube sempre ser uma presença de irmão e companheiro solidário com as lutas sociais do povo, aliado incondicional dos lavradores e dos índios na sua legítima e evangélica luta pela terra e por uma vida digna. Com 85 anos, Dom Tomás participou comigo da delegação brasileira que se reuniu na Bolívia com militantes sociais e intelectuais de todo o mundo para recordar a figura de Che Guevara no 40º aniversário de sua morte em Valle Grande, Bolívia. Um ano depois, viajamos juntos a Caracas, como observadores internacionais das eleições presidenciais da Venezuela. E até o fim de sua vida, sua palavra profética foi sempre de apoio claro ao caminho bolivariano que aquele povo irmão, com tanto esforço e incompreensões, empreende. Sua voz forte e clara ressoou em todos os continentes. A todos ele deixa um testemunho de coragem, confiança no futuro e opção pela justiça e pela paz. 
 
A tendência natural é que as pessoas sejam mais abertas e livres quando jovens. À medida que a idade vai chegando, se tornam menos livres e mais conservadoras. É verdade que, hoje, em certos ambientes do clero e de algumas congregações, encontramos jovens mais conservadores e preocupados com a lei do que a geração mais velha. Mas, isso não é natural. Tem razões e explicações mais estratégicas e menos espirituais. Não tem nada a ver com o que Deus fez acontecer na vida de profetas como Dom Hélder Câmara e Dr. Alceu Amoroso Lima ou do papa bom João XXIII que, quanto mais idosos, mais se abriram interiormente. Eles souberam renovar-se permanentemente. Quanto mais idosos, mais se tornaram homens livres e testemunhas da liberdade do Espírito. Dom Tomás percorreu esse processo espiritual e humano. Nesse caminho, agora, do céu, ele nos convida, a prosseguir e a aprofundar sempre a mística do reino de Deus e vivê-la no compromisso social e político junto com os empobrecidos e pequeninos desse mundo. A essas alturas, Tomás já ouviu de Jesus, seu mestre, a palavra esperada: “Muito bem, servo bom e fiel, entra na alegria do teu Senhor” (Mt 25, 21). Dom Tomás, doutor da fé e profeta desses tempos conturbados, rogai por nós. 
 

Fórum Ecumênico Brasil (FE-BRASIL) divulga nota de apoio aos Tupinambá

KOINONIA Presença Ecumênica e Serviçio

Recebemos com grande preocupação a noticia da prisão pela Policia Federal neste dia 23 de abril, de Rosivaldo Ferreira dos Santos, cacique do Povo Tupinambá da Serra do Padeiro, sul da Bahia.

Babau, como é mais conhecido, é uma das principais lideranças indígenas do Brasil e sua forte e contundente atuação na defesa do território de seu povo no sul da Bahia vem, há alguns anos, gerando uma série de perseguições e ameaças de morte, perpetradas por fazendeiros e lideranças políticas da região, com forte conivência de outros poderes locais, incluindo o judiciário e as polícias.

Alguns meios de comunicação de massa também têm contribuído para aumentar a onda de perseguição aos Tupinambá, criminalizando o direito legítimo desse povo ao seu território ao associar a luta política de sua principal liderança ao banditismo e à violência.

Babau estava com viagem marcada a Roma na quarta-feira, 23/04 para uma audiência com o papa Francisco, no qual entregaria documento relatando o martírio que seu povo vem sofrendo na luta legítima pelo direito ao seu território e à sua cultura. Segundo nota do CIMI, o passaporte de Babau foi suspenso pela Polícia Federal, menos de 24 horas depois de emitido, por quatro mandados de prisão: três arquivados em 2010 e outro da Justiça Estadual de Una acusando-o de participação no assassinato de um pequeno agricultor. O inquérito que levou ao mandado de prisão contra Babau e outras lideranças Tupinambá foi realizado em apenas dez dias, tem depoimentos sem o contraditório e uma série de outras fragilidades jurídicas. A prisão se deu durante audiência unificada das comissões de Direitos Humanos da Câmara e do Senado, da qual participava, no Congresso Nacional, em Brasília (DF) e foi decretada pela Vara Criminal da Justiça Estadual de Una, município baiano.

“Tiraram nós do nosso território e agora continuamos no mesmo impasse. Estão querendo nos matar. Querendo, não, estão nos matando. Quero que este parlamento ou nos mate de uma vez ou faça alguma coisa” disse Babau ao chegar à Câmara dos Deputados, segundo nota do CIMI.

Essa luta de Babau e de seu povo se insere num contexto de violações e profundo desrespeito aos povos indígenas de todo o Brasil e ao seu modo de viver, cada vez mais encurralados por um modelo perverso de desenvolvimento. Grandes projetos governamentais e privados, expansão do agronegócio e mineradoras sobre territórios imemorialmente habitados por esses povos e outras populações tradicionais são a expressão mais evidente desse modelo.

Nós, organizações ecumênicas e igrejas cristãs reunidas no Fórum Ecumênico Brasil, manifestamos nossa total solidariedade e apoio ao Cacique Babau e demais lideranças indígenas injustamente processadas nesse inquérito. Afirmamos, com a mesma veemência do cacique, que os direitos dos povos indígenas de todo o Brasil estão sendo violados por essa absurda perseguição e truculência que vem sendo cometida contra os Tupinambá há muito tempo. Nos causa também preocupação o risco pela integridade física de Babau caso ele seja transferido para uma prisão na região sul da Bahia.

Clamamos a autoridades estaduais e federais, especialmente o Ministério da Justiça para que intervenha de forma a preservar a vida e a segurança das lideranças indígenas envolvidas nesse inquérito, relaxamento das prisões e agilização do processo para assegurar definitivamente o território aos Tupinambá, restituindo a paz na região.

Brasília, 24 de abril de 2014

Conselho Nacional de Igrejas Cristãs – CONIC

 

Conselho Latino-americano de Igrejas do Brasil – CLAI Brasil

Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil

Igreja Episcopal Anglicana do Brasil 

Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

Igreja Ortodoxa Siriana

Igreja Católica Apostólica Romana

Aliança de Batistas do Brasil.

Coordenadoria Ecumênica de Serviço – CESE

Fundação Luterana de Diaconia – FLD

KOINONIA – Presença Ecumênica e Serviço

REJU -Rede Ecumênica de Juventudes

Comissão Ecumênica dos Direitos da Terra – CEDITER

Centro Ecumênico de Serviço à Educação Popular – CESEP

Centro Ecumênico de Evangelização, capacitação e Assessoria – CECA

Cento de Estudos Bíblicos – CEBI

DIACONIA

Universidade Popular – UNIPOP

Comissão Ecumênica de Combate ao Racismo – CENACORA 

Dia Mundial de Oração

Associação de Seminários Teológicos – ASTE

Programa de Formação e Educação Comunitária – PROFEC

KOINONIA comemora duas décadas com ato ecumênico e inter-religioso e seminário sobre reforma política e desigualdades no Rio

Thiago Ansel

Nos dias 25 e 26 de abril, KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço fará celebrações para marcar a abertura do ano comemorativo de suas duas décadas de existência. Convidamos a todas e todos a participarem desses momentos que refletem nossa caminhada de luta por direitos e, ao mesmo tempo, simbolizam a renovação das forças transformadoras que têm nos unido ou passarão a nos unir a partir de agora.

As comemorações, no melhor estilo koinônico, começam na sexta-feira (25) com um ato ecumênico e inter-religioso, a partir das 18h, na capela do Colégio Sion. No dia seguinte, promoveremos o seminário “Reforma Política e Desigualdades”. Aberto ao público, o evento começará às 10h, no Hotel Scorial, e contará com a presença de nossos associados, parceiros e representantes da sociedade civil de diferentes campos de atuação e quem mais tiver interesse no tema.

Lembrando que as celebrações só estão começando, já que 2014 será repleto delas.