Machadinha - RJ
História:
A comunidade remanescente de quilombo de Machadinha está localizada no município de Quissamã, no norte fluminense. Sua formação histórica está diretamente associada à Fazenda Machadinha, de origem no século XVIII, onde pessoas africanas escravizadas e seus descendentes foram submetidas ao trabalho compulsório até as primeiras décadas do século XX. A fazenda manteve suas atividades até 1924, quando suas terras foram vendidas ao Engenho Central de Quissamã, inserindo o território em uma nova lógica produtiva vinculada à agroindústria canavieira regional.
Após essa venda, as terras passaram a integrar o patrimônio público municipal, como forma de pagamento de dívidas, permanecendo até hoje sob administração da Prefeitura de Quissamã. Apesar das sucessivas transformações fundiárias e administrativas, os descendentes das famílias negras permaneceram no território, ocupando inclusive as antigas senzalas da fazenda. Essa permanência assegurou a continuidade de práticas agrícolas, culturais e modos de vida transmitidos entre gerações, configurando uma relação histórica e simbólica profunda com a terra.
A comunidade de Machadinha organiza-se territorialmente em cinco núcleos: Machadinha, Bacural, Santa Luzia, Boa Vista e Mutuma. Essas áreas foram incorporadas ao longo do tempo por diferentes meios, como compra, ocupação histórica e doação — a exemplo do núcleo de Santa Luzia. Embora distribuídos espacialmente, os moradores compartilham uma identidade coletiva comum enquanto remanescentes de quilombo de Machadinha, fundamentada na ancestralidade vinculada à antiga fazenda e em uma compreensão ampliada do território como a soma histórica e social desses cinco núcleos.
A comunidade foi certificada como remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares, marco fundamental para o reconhecimento oficial de sua identidade étnica. Possui ainda processo de regularização territorial aberto junto ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária desde 2006, que permanece sem conclusão, revelando a persistência de entraves institucionais e políticos à efetivação do direito constitucional ao território.
Os quilombolas de Machadinha mantêm vínculos profundos com o território por meio da memória, da cultura e de estratégias diversas de reprodução social. Embora parte das áreas seja utilizada para agricultura, criação de animais e arrendamentos, muitos moradores também atuam em atividades não agrícolas, especialmente em serviços vinculados ao poder público municipal. Essa combinação de práticas expressa a adaptação histórica da comunidade às transformações econômicas, sem romper com os laços territoriais e identitários.
A antiga senzala da Fazenda Machadinha constitui um dos elementos centrais da materialidade da memória da escravidão no território. Preservada e ressignificada ao longo do tempo, a senzala não se apresenta apenas como vestígio arquitetônico do sistema escravista, mas como espaço simbólico de resistência, ancestralidade e afirmação quilombola. Sua preservação é resultado direto da permanência das famílias no local e da luta da comunidade para transformar um espaço de opressão em lugar de memória, identidade e reivindicação de direitos.
O jongo de Machadinha destaca-se como uma das mais importantes expressões culturais da comunidade, articulando música, dança, oralidade e memória ancestral. Transmitido entre gerações, o jongo atua como linguagem política e cultural por meio da qual a comunidade elabora sua história, reafirma sua identidade quilombola e fortalece os vínculos coletivos. Mais do que manifestação cultural, o jongo constitui um instrumento de resistência, sociabilidade e afirmação frente aos processos de invisibilização histórica.
A feijoada de Machadinha configura-se como prática cultural e alimentar profundamente associada à identidade quilombola local. Para além de seu valor gastronômico, a feijoada opera como marcador simbólico de pertencimento e etnicidade, articulando memória, ancestralidade e sociabilidade comunitária. Preparada e compartilhada coletivamente, a feijoada expressa saberes tradicionais, relações de reciprocidade e estratégias de afirmação cultural diante do poder público e da sociedade envolvente.
As disputas em torno da titulação do território de Machadinha evidenciam as tensões entre o reconhecimento formal da identidade quilombola e a efetivação concreta dos direitos territoriais. A permanência das terras sob domínio público municipal, aliada à demora na conclusão do processo de regularização fundiária, produz conflitos relacionados ao uso, à posse e à autonomia territorial da comunidade. Essas disputas revelam os limites das políticas de reconhecimento quando dissociadas da garantia plena do território, central para a reprodução social, cultural e política do quilombo de Machadinha.
Origem do nome: O nome Machadinha deriva da antiga Fazenda Machadinha, grande propriedade rural formada no período colonial, onde pessoas africanas escravizadas e seus descendentes foram submetidos ao trabalho forçado. A denominação da fazenda passou a designar o território historicamente ocupado por esses descendentes, consolidando-se como referência identitária e coletiva da comunidade quilombola.
Processo:
- Certificada
Município / Localização: Quissamã
Estágio no processo e regularização territorial: Certificada pela Fundação Cultural Palmares em 13/12/2006 - Processo: 01420. 002410/2006-19 - Incra - Processo: 54180.001124/2006-64 .
Referência:
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Redação: YABETA, Daniela. Quilombo Machadinha (RJ). IN: Atlas do Observatório Quilombola. Observatório Quilombola. KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, 06 de janeiro de 2026.
Pesquisas: Caio Lima; Daniela Yabeta; Maria Eduarda Goulart
Mais informações: Daniela Yabeta é professora de História do Brasil no curso de Licenciatura em História da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS - Erechim) - Coordenadora do Observatório de História da Fronteira Sul (OHF-Sul).
Verbete atualizado em 18/01/2026<< Voltar para listagem de comunidades
